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Os venezuelanos têm o leite racionalizado, mas receberam diariamente no telemóvel mensagens de voz gravadas com Hugo Chávez – ele próprio - a apelar ao voto no SIM, no referendo de hoje. A operadora telefónica é uma empresa nacionalizada, como é bom de ver. Independentemente do resultado do referendo, destinado a perpetuar constitucionalmente Chávez no poder, tenho uma certeza – e eu costumo ter poucas certezas: se o Não contasse com metade dos meios de propaganda dos chavistas e se, o que não era aconselhava, utilizasse os meios repressivos, a chantagem e a intimidação que o «socialismo do século XXI» usou durante a campanha eleitoral, ganhava com mais de 80%. Nestas circunstâncias, a vitória do SIM é uma vitória do terror anti-democrático; a vitória do Não, ou mesmo o reconhecimento uma derrota eleitoral escassa, seria a mais cruel humilhação que o povo venezuelano infligia a Chávez.
Como se pode constatar, o que estava mesmo em causa, nas eleições de Domingo, na Venezuela, era a criação do «ambiente» que permitisse um novo referendo sobre a Constituição. Hugo Chávez precisa de alterar a Constituição antes de acabar o actual mandato. Com o actual texto da Lei não se pode recandidatar. O «socialismo do século XXI» gira todo à volta desta questão:
Hugo Chávez recebeu sinais, por diversas vezes, nos últimos anos, de que parte importante da cadeia de comando das Forças Armadas cumpriria, em qualquer circunstância, a Constituição. Por isso, e só por isso, Chávez tentou alterar a Constituição, através de referendo, em Dezembro do ano passado, de modo a: i) perpetuar-se no poder; ii) consagrar constitucionalmente o «socialismo bolivariano». O povo venezuelano fez-lhe um manguito. Passado um ano, realizaram-se as eleições estaduais e municipais. Chávez jogou, nestas eleições, tudo o que podia jogar, usando para tal o dinheiro dos contribuintes: intimidando e reprimindo, a torto e a direito, eleitores e candidatos da oposição (inibiu da qualidade de eleitos centenas de opositores, alguns dos quais com grande prestigio junto dos eleitores, ameaçou de prisão e por aí fora). Queria preparar o terreno para novo referendo. Mesmo sob a pressão chavista, o povo venezuelano voltou a fazer-lhe um manguito. A oposição ganhou nos dois estados mais populosos: Zulia e Miranda (6,6 milhões de habitantes num total de 28 milhões). A oposição ganhou, também, em parte considerável, as grandes cidades, a começar pela quase totalidade dos municípios da capital, Caracas. A cereja em cima do bolo desta vitória eleitoral chavista foi a derrota estrondosa de dois dos mais importantes e leais «homens do presidente», no estado de Miranda, Diosdado Cabello, ex-vice-presidente e ex-ministro do Interior do Governo de Chávez, e em Caracas, de Aristobulo Izturiz, ex-vice-presidente e ex-ministro da educação e ex-presidente do município de Caracas. Chávez perdeu o apoio da grande área metropolitana de Caracas, onde habitam milhões de pobres. Estes resultados eleitorais significam uma vitória da democracia na Venezuela.
Nas eleições de hoje «Está em causa o futuro da revolução, o futuro do socialismo, o futuro da Venezuela, o futuro do Governo revolucionário e também o futuro de Hugo Chávez».
No próximo dia 23 de Novembro, Domingo, há eleições para governadores regionais e para os municípios na Venezuela. Estas eleições têm uma importância decisiva para o futuro da Venezuela. São as primeiras eleições depois do referendo de Dezembro do ano passado, cujo resultado travou o passo ao projecto totalitário «bolivariano». Hugo Chávez tem jogado tudo:
«una de las campañas electorales más descaradamente delictivas y abusadoras de poder que se recuerden en nuestra historia democrática, malversado de la manera más impúdica el dinero de todos los venezolanos en apoyo a sus candidatos, chantajeado a los ciudadanos con la historia de que no habrá dinero para los estados donde gane la oposición, intimidado a los líderes opositores con amenazas de que les encarcelará personalmente como si fuera un juez, y convocando a sus hordas de camisas rojas a quemar alcaldías de oposición como la de Carúpano, Túlio Hernandez, no El Nacional) .
As sondagens apontam para a eleição de 7 governadores da oposição (em 23 Estados) e um terço das «alcadías»
Clive Stafford Smith, director da ONG britânica REPRIEVE, em conferência de imprensa, realizada na Ordem dos Advogados, em Lisboa, em Abril último, teceu severas considerações contra o governo português pelo «envolvimento» no transporte de presos para Guantánamo. Afirmou mesmo haver «zero de dúvidas de que houve cumplicidade do governo português e envolvimento no transporte de presos suspeitos de terrorismo». A sessão da ONG e as críticas – justas ou injustas, conforme as ópticas – ao governo português são normais em democracia. Haveria um terramoto político se o governo decidisse expulsar de imediato do país o protagonista da conferência de imprensa. Mas foi isso que aconteceu, ontem, na Venezuela. Chávez expulsou do país o director e o vice-director de uma ONG que apresentou em Caracas, em conferência de imprensa, um relatório sobre direitos humanos, onde se criticava o governo venezuelano.´Isto traduz a medida da democracia. Contudo, o «problema» é que, as mesmas pessoas que aplaudiram de pé, na primeira fila, a ONG que criticou o governo português, estão agora, também, na primeira fila, a elogiar a «firmeza» de Chávez contra os «agentes do imperialismo» que se querem imiscuir nos assuntos internos de um país soberano. Haja paciência!
