«
As minhas relações com Bolo Pachá (1) tiveram o seu eco em Portugal, onde os apaches que ali estão mandando pretendem agora insinuar que eu teria sido o amigo do Pachá e, porventura, o seu cúmplice. Homem Christo Filho, que hoje se intitula representante do Governo Português, andou pelas redacções dos jornais de Paris a oferecer um papel encontrado em Lisboa num cofre de Affonso Costa e no qual se fala em Bolo Pachá. Tive de fazer declarações, de dirigir cartas aos jornais…»
Diário de João Chagas, 14 de Fevereiro de 1918.
(1) Bolo Pachá, egipcio, que vivia em França. Em 1918 foi preso no Grand Hotel em Paris, acusado de traição a favor da Alemanha, julgado, condenado e fuzilado. No seu processo, a principal acusação terá sido a de receber dinheiro da Alemanha para pagar artigos pacifistas em jornais franceses.
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«Notícias de Lisboa, nos jornais de Paris, mais precisas e favoráveis. 0 governo estaria seguro de dominar o Porto e esperaria fazê-lo em breves dias, contando para esse efeito com cinquenta mil homens. Cinquenta mil homens! Era o que se nos tornava preciso na Flandres, dispostos a baterem-se! Os monárquicos disporiam de quinze mil. Não sei onde Portugal foi buscar um tão grande exército. Num número do
Século que me chega hoje às mãos leio: «
Acerca do brilhante revés (sic) infligido em Águeda, pelas tropas da República, aos revoltosos do Porto, são conhecidos mais pormenores.» Este brilhante revés trouxe-me um momento de regozijo, à Eça de Queirós.»
Diário de João Chagas, 9 de Fevereiro de 1919.
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«(...) em Lisboa, os monárquicos, com excepção dos que foram apanhados em Monsanto gozavam de ampla liberdade, faziam os seus conciliábulos, entregavam-se como sempre à campanha dos boatos. Foram eles que espalharam a notícia, de que se fez eco a imprensa estrangeira, de que navios de guerra ingleses se opunham a que o Porto fosse bombardeado. Em Lisboa esteve um único navio de guerra inglês, o Liverpool, que entrou e saiu, e no Norte apenas constava ter entrado o cruzador Diadème, mas o governo de Lisboa fazia desmentir formalmente que qualquer deles tivesse intervido - escrevia 0 Mundo – «a favor de cidades, ou de indivíduos portugueses.» (...) 0 equívoco – mais um equívoco! – em que o governo Relvas caiu solidarizando a República com o sidonismo, ou aceitando a solidariedade dos sidonistas, está produzindo os seus frutos e sabe Deus quantos produzirá ainda! A opinião republicana, mais esclarecida do que a dos homens que a dirigem, não aceita visivelmente essa solidariedade, procura ainda surdamente, mas de um modo manifesto já, combater o equívoco, purificar a atmosfera política, restaurar definitivamente a República. Deste antagonismo vão sair – ai de nós! – novas lutas. A manifestação mais característica deste equívoco foi a sessão do Senado, no dia 30 de Janeiro. Como se não houvesse em Portugal uma guerra civil, como se os monárquicos não tivessem restaurado a monarquia no Norte e não houvessem hasteado a bandeira azul e branca nos muros do Porto, como se ali mesmo em Lisboa, poucos dias antes, não se tivesse travado uma luta sangrenta para defender a República, isto é, como se nada disto se tivesse passado, como se tudo isto fosse um sonho e tudo continuasse como dantes, sob Sidónio Pais ou sob Tamagnini Barbosa, o Senado reuniu com a sua maioria sidonista e a sua minoria monárquica e discursou, deliberou como nos dias mais correntes da ditadura: 0 senador monárquico Domingos Pinto Coelho prestou homenagem à memória do presidente da República Brasileira Rodrigues Alves, o presidente Zeferino Falcão manifestou o seu pesar por só então, poder o Senado associar-se ás manifestações de pesar da Câmara, pela morte do presidente Roosevelt. A estes votos associaram-se outros senadores monárquicos – o visconde de Carriche, o Castro Lopes ... Introduziu-se na sala um novo senador, deliberou-se agregar um outro à comissão de infracções. Estavam presentes 30 senadores e não diríamos que Portugal se encontrava em guerra civil, se Machado Santos, que continua à solta, sem que a República ponha definitivamente um termo às suas loucuras, não tem apresentado um projecto de lei que o faria baixar imediatamente a um manicómio, se tantos outros documentos do mesmo género não o classificassem de há muito entre os mais desenfreados vesânicos que a Revolução de 5 de Outubro desencadeou na sociedade portuguesa.»
Diário de João Chagas, 5 de Fevereiro de 1919.
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