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Uma cidade existe porque há coisas que tiram a vista a outras, se não, não havia cidade.
Siza Vieira, arquitecto.
(via frenchkissin)
Circula por aí uma outra petição, esta Em defesa de Lisboa, na qual se lê: «O Porto de Lisboa e as actividades que dele dependem empregam cerca de 140.000 pessoas e representam cerca de 5% do PIB regional e 2% do PIB Nacional. Trata-se, por isso, de uma estrutura económica de importância vital para Lisboa e para o bem-estar dos seus cidadãos, sendo também uma peça estratégica do sector portuário nacional sem a qual seriam alguns portos estrangeiros os grandes beneficiados. (…) Não podemos ser meros espectadores dessa irresponsabilidade, nem pactuar com a desinformação que existe em torno do tema. (…) Não vamos permitir que uma das infra-estruturas mais importantes para o desenvolvimento e sustentabilidade da cidade e do país sucumba ao populismo irresponsável. Vamos lá assinar a petição, pela defesa do Porto de Lisboa e da cidade, do emprego e do ambiente, contra a demagogia!» Já recolheu cerca de 3 000 assinaturas e o primeiro subscritor é João Carlos Quaresma Dias, professor do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL).
(Foto daqui)
(Foto de LM Correia, Rocha Conde de Óbidos ).
Eu leio-os, como quem lê epitáfios. E em cada leitura, cada vez mais, «há, nos olhos meus, ironias e cansaços». Eles «não sabem, nem sonham» como há 40 anos, ali, na Rocha de Conde Óbidos, o cais fervilhava de gente de trabalho e a actividade portuária e a reparação naval eram as únicas actividades por aquelas bandas. Um quiosque madrugador servia o «pequeno-almoço» aos operários do estaleiro naval e aos estivadores e marinheiros, entre as 7 e as 8, ainda «eles» dormiam a sono solto. E os barcos aportavam uns atrás dos outros. E os guindastes se perfilavam atarefados nas cargas e descargas. E os sacos eram alombados por homens de trabalho. O porto – o Porto de Lisboa – como diziam as placas em letras negras em fundo branco, era (e é, ainda) o modo de vida de milhares de pessoas. Era um tempo em que eu, com 18 anos, de fato-macaco, palmilhava a zona, à hora de almoço, à procura da refeição mais barata. E por lá nunca encontrei as outras «pessoas», aquelas que , hoje, não querem que os contentores lhes ofusquem as vistas . E, muitos deles, têm a minha idade. Os cais, os guindastes, as gaivotas, as tascas, o rio e o cheiro a maresia eram só «nossos». Naquele tempo, aquelas «pessoas», que hoje querem contemplar as vistas, não se queriam misturar com operários a cheirar a nafta e estivadores a cheirar a suor. Mas, hoje, Lisboa já é das «pessoas», como é de bom tom e democraticamente aceite. É de quem contempla as vistas, de quem almoça em restaurantes caros, de quem escreve nos jornais. Não é de quem trabalha no porto; de quem tem de levar o salário para casa para sustentar a família, mas de quem quer contemplar as vistas. Para ser rigoroso, no entendimento dessas «pessoas», o porto de Lisboa deve ser de quem tem casa no Alentejo, escreve nos jornais, bota palavra nas televisões e, para descontrair de tanta azáfama, quer vistas largas sobre o rio. Isso de operários, contentores, trabalho, produção, e outras merdas desse tipo só lhe atrapalha a vida e cheira mal. Sobretudo a suor, o que «eles» detestam. Eles, com o dinheiro que ganham por andar nestas andanças da «opinião», gostam mais de passarinhos!
PS: Penso ter respondido, com este texto, a todos os e-mail recebidos e a outras referências blosgosféricas sobre o meu post sobre o porto de Lisboa.
Lisboa é uma cidade azarenta: caiu-lhe um porto na margem do rio. Ainda por cima, os Fenícios que cá chegaram, há uns largos séculos, decidiram-se pela margem norte para encostar os barcos. Podiam ter aportado à margem sul. Mas não. Vieram direitinhos às «Docas». Madrid, por exemplo, é uma cidade com sorte: não tem problemas de expansão do porto. Prescindiu dessa coisa horrível que é estacionar contentores junto ao rio. Os madrilenos, povo de vistas largas, perceberam logo que um porto lhe ia estreitar as vistas. Mas podemos enviar o porto de Lisboa para Roterdão. Aí é que um porto fica bem. Os holandeses, mais trabalhadores do que contemplativos, não se importam. E já agora, para pouparmos no subsídio de desemprego, enviem também os estivadores e os embarcadiços. Depois, felizes, é só pedir uma imperial e uns tremoços e observar o voo das gaivotas que se entrelaça nos raios de sol. Sim, isso da pobreza é sempre culpa dos outros!
(Imagens do porto de Roterdão).