Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Para o Mário Rui, o Largo do Rato é a sua aldeia, por isso, não quer lá o moderníssimo mausoléu:
«O Largo do Rato nunca foi bonito, mas era mais bonito quando tinha o Tasco, muitos eléctricos, a bomba de gasolina, quando o 18 era uma grande e luminosa taberna com memória de fado. No Rato, as risonhas e sevilhanas góticas do Frágil esperavam por um autocarro de dois andares, madrugada. Muito usada foi, a balança dos Correios, para pesar erva. A loja do sr. Serafim era um pavor de flanelas, a do sr. Farinha era pior. A Fernandes era melhor do que é hoje. Logo ao início de cada uma das suas ruas, tantas coisas boas. A Dione, a Brumel. A charcutaria Brasil. Os livros da Vampiro no alfarrabista, antes do talho de carne de cavalo. As motas, que vinham de todos os lados para a Alsaciana. E a Associação Escolar de São Mamede, onde estive da infantil até à 4ª classe sem que alguém me aborrecesse com religiosidades ou parvoíces do regime (passava-se, sem dizer ai, à frente dos textos de louvor aos almirantes). A coisa lá era muita leitura, interpretação, gramática, redacção ("o coelho é um mamífero que, depois de morto, dá uma carne saborosíssima"), reguadas, matemática, história e geografia. E beijos das professoras e da dona Patrocínio. Quando antevejo o moderníssimo mausoléu, mas tão moderno, mas mesmo tão moderno, oh yeah, que vai limpar aquela minha velha mancha roxo-velho, onde depois houve bailes étnicos aos fins-de-semana, lembro as batas brancas e os maternais nomes de Helena, Isabel, Eugénia. E o Rui Manuel, o Seixas, o Elias, o Baeta, o Manuel Augusto, o António Ribeiro, o Lampreia, o Marino, uns amigos, outros "inimigos", todos amigos no tempo.»