«Quando era criança, Setúbal era a cidade da indústria conserveira. Fui criado num bairro rodeado de fábricas de conserva. Um barco carregado de peixe podia chegar a que horas chegasse: às cinco da tarde, às nove da noite; às três da manhã; a um sábado ou a um domingo. Tocavam as sirenes nas fábricas a chamar, e toda a gente acorria para a labuta; enquanto houvesse peixe para tratar. Podia-se trabalhar 24, 48 horas seguidas, as que fossem necessárias até dar conta do recado, e depois ficar outras tantas em casa à espera de novo barco.
Setúbal, a par do Algarve, tinha a melhor conserva de peixe do mundo e arredores. E exportava.
Com a Revolução de Abril, surgiram os contratos colectivos de trabalho, e os trabalhadores conserveiros, apesar da especificidade do sector, acharam que deviam ter um horário de trabalho “como toda a gente”. De segunda a sexta; das 8 às 13, das 14 às 18. Um barco que chegasse à Doca do Comércio, por exemplo, numa sexta às cinco da tarde, tinha o destino traçado: o pessoal na fábrica largava às seis, e só tornava a pegar na segunda às oito. Peixe borda-fora. Prejuízo para o armador; prejuízo para o dono da fábrica.
Em menos de um foguete as fábricas deslocalizaram para Marrocos. Desemprego e miséria em Setúbal.»
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