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Antigamente convidava-se para os congressos partidários os partidos e personalidades estrangeiras com afinidade ideológicas. Hoje, parece, os convites correm ao sabor das oportunidades. Eu sei que, por exemplo, o BE gostaria de ter a presença de Hugo Chávez no seu congresso na esperança de que os coelhos se reproduzissem muito mais. Mas Chávez não se deu a essa incómodo. Também sei que no PS há quem pense que a presença de Hugo Chávez no congresso dos socialistas é um «trunfo» contra o crescimento eleitoral do BE. Por isso, convidaram-no. É um erro. Um erro crasso. O Governo português pode e deve ter as melhores relações com o Governo venezuelano e com o seu presidente. Seja por causa do petróleo, do Magalhães ou da comunidade portuguesa naquelas paragens. O PS ao convidar Hugo Chavéz vai, em primeiro lugar, transformar o congresso numa feira; em segundo lugar, confundir os porugueses sobre o que é que o PS quer para Portugal. É que Chávez não é o modesto quadro intermédio do Partido Comunista Chinês que, despercebido, esteve presente no último congresso do PS. Chávez é um espalhafatoso militar golpista, presidente da Venezuela, que vê em Cuba o modelo de «socialismo» para toda a América Latina. A ser verdade que Chávez foi convidado para assistir ao congresso do PS, desde o aeroporto até ao aeroporto, o congresso do PS vai ser o congresso de Hugo Chávez.
Como se pode constatar, o que estava mesmo em causa, nas eleições de Domingo, na Venezuela, era a criação do «ambiente» que permitisse um novo referendo sobre a Constituição. Hugo Chávez precisa de alterar a Constituição antes de acabar o actual mandato. Com o actual texto da Lei não se pode recandidatar. O «socialismo do século XXI» gira todo à volta desta questão:
Hugo Chávez recebeu sinais, por diversas vezes, nos últimos anos, de que parte importante da cadeia de comando das Forças Armadas cumpriria, em qualquer circunstância, a Constituição. Por isso, e só por isso, Chávez tentou alterar a Constituição, através de referendo, em Dezembro do ano passado, de modo a: i) perpetuar-se no poder; ii) consagrar constitucionalmente o «socialismo bolivariano». O povo venezuelano fez-lhe um manguito. Passado um ano, realizaram-se as eleições estaduais e municipais. Chávez jogou, nestas eleições, tudo o que podia jogar, usando para tal o dinheiro dos contribuintes: intimidando e reprimindo, a torto e a direito, eleitores e candidatos da oposição (inibiu da qualidade de eleitos centenas de opositores, alguns dos quais com grande prestigio junto dos eleitores, ameaçou de prisão e por aí fora). Queria preparar o terreno para novo referendo. Mesmo sob a pressão chavista, o povo venezuelano voltou a fazer-lhe um manguito. A oposição ganhou nos dois estados mais populosos: Zulia e Miranda (6,6 milhões de habitantes num total de 28 milhões). A oposição ganhou, também, em parte considerável, as grandes cidades, a começar pela quase totalidade dos municípios da capital, Caracas. A cereja em cima do bolo desta vitória eleitoral chavista foi a derrota estrondosa de dois dos mais importantes e leais «homens do presidente», no estado de Miranda, Diosdado Cabello, ex-vice-presidente e ex-ministro do Interior do Governo de Chávez, e em Caracas, de Aristobulo Izturiz, ex-vice-presidente e ex-ministro da educação e ex-presidente do município de Caracas. Chávez perdeu o apoio da grande área metropolitana de Caracas, onde habitam milhões de pobres. Estes resultados eleitorais significam uma vitória da democracia na Venezuela.
Nas eleições de hoje «Está em causa o futuro da revolução, o futuro do socialismo, o futuro da Venezuela, o futuro do Governo revolucionário e também o futuro de Hugo Chávez».
O partido comunista da Venezuela está entre a espada e a parede: apoia a «revolução anti-imperialista» de Chávez, mas este classifica os comunistas como contra-revolucionários. Óscar Figuera, secretário-geral dos comunistas venezuelanos, reagiu e «explicou que nenhuma revolução se pode considerar como tal se se revestir de traços anticomunistas» (Avante, 16.10.09). Ora, se Chávez quer acabar com o partido comunista da Venezuela (ameaçou fazer desaparecer o PCV do mapa político), logo não há «revolução anti-imperialista» na Venezuela. Não tarda muito, o PCP vai começar a chamar ao amigo de Fidel Castro um contra-revolucionário que confunde Lisboa com Havana... São as teias que as «frentes populares» tecem.