
Nós – portugueses – estamos, ainda hoje, entre Eusébio Macário e A Capital ou A relíquia. Provavelmente, bebemos por esse mundo em que nos entornámos, por essas tantas paragens onde os ventos e as velas nos levaram, o pior que encontrámos. Enchemos porões de especiarias e materiais preciosos, mas esquecemo-nos de embarcar a dialéctica e a poesia, a arte e os saberes, e muitas outras coisas que por lá existiam. Ampliámos os defeitos, mas não as qualidades, como diria Almada Negreiros. É esta «alma portuguesa» que leva a que os piores de entre nós, tribunos fanáticos, anquilosados, sem respeito pela democracia e pelo Estado de Direito, se arvorem em polícias (cuja vocação não se coloca em causa), acusadores e julgadores, sem provas, nem defesas. Tudo ao mesmo tempo, como nas ditaduras. E, sem decoro, ainda evocam em seu abono uma cruzada pela «decência». Ontem, na Quadratura do Círculo, em defesa da sua dama, Pacheco Pereira representou o papel de um destes portugueses «exemplares».
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Pedro Sales (Zero de Conduta) tem dedicado algum tempo a escrever, acertadamente, com factos e evidências, sobre os «os campeões de sofá» dos Jogos Olímpicos de Pequim. Transcrevo um parágrafo:
«Não sei como é que os campeões de sofá ainda não repararam, mas o turismo olímpico não começou em Pequim. Há quatro anos, em Atenas, um desses atletas sem "brio", "honra" e "ética" fez o quarto pior resultado na sua modalidade. Mais um fraco “que não aguentou a pressão” e que se divertiu à custa dos nossos impostos, tendo mesmo conseguido a proeza de terminar a sua participação com um resultado inferior ao que fazia quando ainda era júnior. O seu nome? Nélson Évora.»
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«Foram presos, libertados e novamente presos. Os brasileiros que assaltaram à mão armada a bomba de gasolina Alves Bandeira, na Pampilhosa, Mealhada, pouco tempo estiveram em liberdade. APJ foi obrigada a libertá-los – depois de uma decisão polémica do procurador de Anadia –, mas horas depois o trio foi detido. É suspeito de três assaltos à mão armada – o último crime com grande violência ocorreu no passado fim-de-semana, na loja Extra Carnes, da avenida D. João II, em Setúbal – e ontem foi ouvido em tribunal. Desconhece-se ainda as medidas de coacção aplicadas aos suspeitos.» [Correio da Manhã]
Comentário de O Jumento:
Começo a recear que alguns magistrados estão a ser permissivos, talvez para tentar culpar a lei e dessa forma atingir o governo, em defesa dos seus interesses corporativos.
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Meu caro João Gonçalves: independentemente de pequenos episódios, como o «número« de ontem, protagonizado por Cavaco Silva, quanto ao essêncial, dizes que o regime está em crise. Claro que está! Mas, como sabes, a crise do regime não é de hoje, nem de ontem, nem é só cá neste cantinho, em que as elites, em geral, são endemicamente invejosas e culturalmente pequeninas. É também por essa Europa fora a começar em Itália e a acabar em França, cujo presidente, e cujo regime tu tanto admiras, usando para isso, naturalmente, outros critérios de avaliação. É um processo degenerativo de envelhecimento da democracia. E não são só as células que vão morrendo. Com a idade e a experiência ganhou manhas e truques que usa, em cada situação, umas vezes para enganar o Zé pagode; outras por mera preguiça. O problema está nas soluções regenerativas (ou alternativas) da democracia tal como ela «existe». Uns esforçam-se por vender, como alternativa, o modelo soviético como solução. Tecem elogios à Revolução de Outubro, citam Marx e Lenine a torto e a direito, e dizem que em Cuba e na Coreia do Norte o povo é feliz. Prezo demasiado a liberdade e a democracia e mando-os bugiar. Conhecemos o que foi (e ainda é) o «socialismo real» para lhes não abrir a porta. Outros – nos quais, muitas vezes, te incorporas - acenam com um «messianismo» abstracto: isto precisa é de alguém, com pulso forte e cacete na mão, para «meter na ordem» a mediocridade e a bagunça reinantes. Por formação democrática não acredito em «salvadores» e muito menos em «pulsos fortes e cacetes na mão». Nem em Deus eu acredito, quanto mais em homens «providenciais». Posto isto, resumidamente, entendo que é no quadro da preservação da liberdade e da democracia que devem ser encontradas as soluções de regeneração e de bem estar colectivo. E neste processo, a «desmontagem» do regime, tal como tu sistematicamente o fazes, é um precioso contributo, tal como outras «desmontagem», vindas do PCP e da extrema-esquerda, são úteis. Temos os partidos que temos e não outros; temos os dirigentes que temos e não outros - são os que os portugueses conseguiram produzir. Não se fabricam nas Caldas… mas continuamos a luta por dias melhores. É a vida!
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Pensei na iminência de um golpe de Estado, mas não dei conta de sinais visíveis de descontentamento entre os militares; pensei na dissolução da Assembleia da República – já há precedentes de dissoluções com maiorias absolutas –, mas não dei conta de «nervosismo» nos membros do Governo; pensei, finalmente, que se tratava do anúncio da descoberta de petróleo no Beato e que, num golpe de asa, a «crise» passava à história. Não me ocorreu o pequeno sismo nos Açores, até porque os açorianos estão habituados a terramotos a sério e a outras inclemências da natureza.
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«Um país adiado» do Pedro Correia (Corta-fitas).
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Há uma característica muito própria nos portugueses: sabem sempre como não se faz, detectam á distância, muitas vezes só pelo cheiro, o que está errado, o que está mal; mas raramente sabem como se faz, o que não os impede de apregoar ao vento que passa como não se faz.
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A propósito do caso da
ambulância estorvada na sua marcha de urgência, pela Brigada de Trânsito, quando seguia a caminho do Hospital de Ponte Lima,
aprendi o que qualquer mortal sujeito a necessitar, de um momento para o outro, de um desses veículos, deve saber. Aprendi que as ambulâncias não são todas iguais. Numa primeira classificação,
existem as ambulâncias públicas e as ambulâncias privadas. Numa segunda classificação,
existem as ambulâncias que podem circular com as luzes de emergência ligadas e as que não podem circular com as luzes de emergência ligadas. As que podem são as públicas; as que não podem são as privadas. Ora, esta distinção é muito importante, sobretudo para os médicos em serviço nos Centros de Saúde. Quando enviam um doente para um Hospital têm de diagnosticar também (e escrever na respectiva ficha) se o doente está capacitado para seguir numa ambulância que não pode circular com as luzes de emergência ligadas ou se, pelo contrário, deve seguir obrigatoriamente numa ambulância pública. E não se pode enganar, a bem do doente. Porque as ambulâncias privadas, aquelas que não podem circular com as luzes de emergência ligadas, transgridem o código da estrada quando acendem as ditas luzes. Mas nesta teia em que se espraia a alma portuguesa fica por resolver as situações em que o doente, transportado numa ambulância privada, já a caminho, de improviso, e sem se esperar, dá notórios sintomas de urgência. Acende a luz ou não acende a luz? Acho que deve ser nomeada uma comissão para estudar estas situações, a cujas conclusões se dê forma regulamentar. Pela minha parte, esteja em que situação estiver, desde que fale, antes de entrar numa ambulância, perguntou: é pública ou privada? Já não me enganam. Nas privadas, nunca.
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«
Ontem, num restaurante pequeno e familiar ao lado de casa, gerido por brasileiros, havia um «jantar de grupo»: trinta brasileiros comiam churrasquinho, bebiam cerveja e comentavam o campeonato português. (
...) Hão-de cantar o hino, hão-de saber quem eram os reis da primeira dinastia, hão-de cozinhar bacalhau e, quem sabe, emigrar para França. Alguns hão-de ter nomes comuns, como Nelson Évora (nasceu na Costa do Marfim, tem pais cabo-verdianos, vive em Portugal desde os seis anos e adquire a nacionalidade portuguesa aos dezoito), outros chamar-se-ão Bosingwa (nasceu em Kinshasa) ou Obikwelo (nasceu na Nigéria). É isto a alma portuguesa, senhores.»
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