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O senhor António vive numa casa que dá para um pátio na Rua Nova da Piedade. Ele, a mulher e dois filhos. O senhor António faz biscates, repara um esquentador aqui, substitui uma torneira ali, acode a um curto-circuito acolá. A mulher cuida dos filhos e da lida da casa e, quando lhe sobra tempo, faz limpezas onde calha, mas sempre nas imediações. Há muitos anos que me socorro do senhor António, homem falador, com brio profissional e aprumado no vestir. Sei que costuma ir, há muitos anos, passar férias para o parque de campismo de Monte Gordo. Hoje, à hora de almoço, quando subia a Rua Nova da Piedade, em direcção à Praça das Flores, encontrei o senhor António de chinelos, calções de banho e uma t-shirt. Está de férias. «Faço sempre férias nos primeiros quinze dias de Julho» – disse-me. Do pátio vinha um intenso cheiro a sardinhas assadas. «Então, não foi para Monte Gordo?» – Interroguei. «Não. Este ano não deu. É a crise. Mas, já disse ali à patroa, isto aqui é quase a mesma coisa: vesti o calção de banho e estou a fazer uma sardinhada. Só não dá para um banho de mar, mas fica para o ano que vem». Despedi-me do senhor António e, em voz baixa, como quem fala para os seus botões, fui repetindo a sua frase: é a crise; é a crise!