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Caro Pedro: sem querer prolongar esta nossa conversa, sempre direi que se o problema é mesmo de alternativa – o que é verdade –, a questão coloca-se, do ponto de vista estrutural e não conjuntural, à direita e não à esquerda. Penso que é a direita que precisa de se refundar. É à direita que deveria aparecer algo de novo. O CDS/PP é um brinquedo de Paulo Portas e, por isso, politicamente inócuo. Onde está um partido democrata-cristão? Não aparece ninguém que o constitua? E o PSD está nas lonas: programaticamente empobrecido, desgastado por guerras intestinas, sem líder forte e carismático. Sem saber se é social-democrata ou partido popular à espanhola, albergando pessoas tão distintas e com ódios de estimação, como Pacheco Pereira ou Santana Lopes. Ao contrário, à esquerda existe um partido comunista forte (forte enquanto partido na tradição leninista, disciplinado, coeso, um corpo de revolucionários profissionais; sólido na sua influência social, sindical e, direi mesmo, eleitoral; e com doutrina, ideologia, programa, estratégia e organização) que oferece aos portugueses o modelo do «socialismo» à moda soviética. Existe um partido socialista forte – um partido de tradição social-democrata, na linha da Internacional Socialista, tal como o PSOE, o PS francês, os Trabalhistas, o SPD e por aí fora, que em cada país, e em cada momento, no governo ou na oposição, defende políticas mais sociais ou menos sociais, mais Estado «estratega» ou menos Estado, consoante há ou não riqueza para distribuir ou conforme a «personalidade política» do seu líder. Zapatero não é igual a Filipe González, nem Tony Blair a Gordon Brown. Nós por cá, para ampliar o leque de opções dos portugueses à esquerda, ainda temos o bloco de esquerda, com um peso eleitoral e mediático significativo e, provavelmente, em crescimento – uma frente de pequenos partidos de extrema-esquerda que, pelas suas indefinições ideológicas e programáticas, medeia entre sociais-democratas de esquerda e comunistas de direita conforme o que é mais oportuno. O leque de opções à esquerda é, pois, diversificado. É neste contexto, acrescido pela situação grave em que vivemos, e cujas consequências ainda não estão todas à vista, que avalio o papel de Manuel Alegre. Ele representa um papel importantíssimo nos «equilíbrios» dentro do partido socialista e só assim não será se Manuel Alegre considerar, tal como o PCP e o BE, que o PS é um partido de direita, o que não acredito. Mas não acrescenta nada à esquerda, sobretudo à esquerda democrática, acasalando-se politicamente com a extrema-esquerda que vê no PS o seu inimigo principal ou constituindo um novo partido – um «partido socialista de esquerda» que se iria alimentar – e em que medida não sabemos – da «ala esquerda», partidária e eleitoral, do PS, do PCP e do BE. A manta não estica. Mau para os portugueses e para a democracia não é o partido socialista ter que governar com maioria relativa, se for esse o caso, mas a direita governar, no estado em que se encontra, por via da fragmentação do PS ou a alternativa surgir pela porta da extrema-esquerda, do PCP e dos «socialistas de esquerda». Há quem fale em ideias e ideais para justificar «alternativas» mas, pergunto: será que Álvaro de Campos tinha razão?: Não tenho ideais, mas não os tem ninguém. / Quem diz que os tem é como eu, mas mente.