Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



||| Porto de Lisboa. Nostalgia. Obreirismo.

por Tomás Vasques, em 01.11.08

 

 (Foto de LM Correia, Rocha Conde de Óbidos ).

 

 

Eu leio-os, como quem lê epitáfios. E em cada leitura, cada vez mais, «há, nos olhos meus, ironias e cansaços». Eles «não sabem, nem sonham» como há 40 anos, ali, na Rocha de Conde Óbidos, o cais fervilhava de gente de trabalho e a actividade portuária e a reparação naval eram as únicas actividades por aquelas bandas. Um quiosque madrugador servia o «pequeno-almoço» aos operários do estaleiro naval e aos estivadores e marinheiros, entre as 7 e as 8, ainda «eles» dormiam a sono solto. E os barcos aportavam uns atrás dos outros. E os guindastes se perfilavam atarefados nas cargas e descargas. E os sacos eram alombados por homens de trabalho. O porto – o Porto de Lisboa – como diziam as placas em letras negras em fundo branco, era (e é, ainda) o modo de vida de milhares de pessoas. Era um tempo em que eu, com 18 anos, de fato-macaco, palmilhava a zona, à hora de almoço, à procura da refeição mais barata. E por lá nunca encontrei as outras «pessoas», aquelas que , hoje, não querem que os contentores lhes ofusquem as vistas . E, muitos deles, têm a minha idade. Os cais, os guindastes, as gaivotas, as tascas, o rio e o cheiro a maresia eram só «nossos». Naquele tempo, aquelas «pessoas», que hoje querem contemplar as vistas, não se queriam misturar com operários a cheirar a nafta e estivadores a cheirar a suor. Mas, hoje, Lisboa já é das «pessoas», como é de bom tom e democraticamente aceite. É de quem contempla as vistas, de quem almoça em restaurantes caros, de quem escreve nos jornais. Não é de quem trabalha no porto; de quem tem de levar o salário para casa para sustentar a família, mas de quem quer contemplar as vistas. Para ser rigoroso, no entendimento dessas «pessoas», o porto de Lisboa deve ser de quem tem casa no Alentejo, escreve nos jornais, bota palavra nas televisões e, para descontrair de tanta azáfama, quer vistas largas sobre o rio. Isso de operários, contentores, trabalho, produção, e outras merdas desse tipo só lhe atrapalha a vida e cheira mal. Sobretudo a suor, o que «eles» detestam. Eles, com o dinheiro que ganham por andar nestas andanças da «opinião», gostam mais de passarinhos!

 

 

PS: Penso ter respondido, com este texto, a todos os e-mail recebidos e a outras referências blosgosféricas sobre o meu post sobre o porto de Lisboa.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:11




Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2012
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2011
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2010
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2009
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2008
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2007
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2006
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Links

SOBRE LIVROS E OUTRAS ARTES

CONSULTA

LEITURA RECOMENDADA.