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O mais polémico e mais discutido Orçamento do Estado das últimas três décadas foi hoje aprovado, na generalidade, pela Assembleia da República. Alguns deputados do PSD disseram do documento cobras e lagartos, como se não tivessem dado o seu acordo. Para se perceber melhor o exorcismo a que se dedicaram os deputados do PSD deve-se ler um texto publicado no Jornal de Negócios, Afinal, quem aumentou a despesa pública?, da autoria de Manuel Caldeira Cabral. Os números não enganam e aí se pode ler: «Nos últimos 30 anos, a despesa pública aumentou de 29% para 45% do PIB. Um aumento do peso do Estado na economia de 16,3 pontos percentuais, dos quais 12,1 p.p. (75%) aconteceram em governos liderados pelo PSD e apenas 4,2 em governos PS.» E, mais à frente, acrescenta: «Observa-se que os três períodos com maiores contributos para o aumento do peso da despesa pública no PIB foram os da Aliança Democrática (+4,4), os governos de Cavaco Silva (+4,3) e os governos PSD-CDS (+3,4).» E ainda por cima acompanha o texto com um gráfico, como a dizer: quem não sabe ler, vê os bonecos!
Está nas livrarias um novo livro de Roberto Bolaño: A literatura nazi nas Américas (Quetzal), onde se entrecruzam estética e ética; literatura e política (ou talvez ideologia), através de uma enciclopédia ficcional composta por curtas biografias de autores imaginários. O autor de 2666, conhecedor da grandeza e das misérias da literatura latino-americana, vai deixando em cada biografado várias portas abertas para a realidade. Por exemplo, um dos retratados, Amado Couto, (Juiz de Fora, Brasil, 1948- Paris, 1989) está intimamente relacionado com Rubem Fonseca (também nascido em Juiz de Fora), não só pela atracção do autor ficcionado pelo escritor brasileiro, mas pelo próprio nome escolhido por Bolaño: Amado Couto. Couto (Golbery do Couto e Silva) foi o nome general que criou e dirigiu o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (onde Rubem Fonseca foi director), centro nevrálgico, operacional e estratégico, do golpe militar de 1964 no Brasil. A literatura nazi nas Américas é, sobretudo, um exercício mordaz a que Bolaño chamou «grotesco literário» no romance Estrela Distante (Teorema), onde desenvolve a história do último biografado, Ramirez Hoffman.