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«Camilo para o José de Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no primeiro período de loucura: - Veja esse desgraçado…Era um rapaz inteligente… – E depois de uma pausa dolorosa: - E tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as obras do Teófilo Braga.»
Raul Brandão, Memórias, 1 de Maio de 1910 (Edição Perspectivas & Realidades).
Numa conferência sobre emprego, em Oslo, Dominique Strauss-Kahn, director-geral do FMI veio lembrar, a quem se tenha esquecido, que a crise «ainda não terminou». Depois de informar que desde o começo da crise, há 3 anos, existem mais 30 milhões de desempregados, rematou: «Esta crise não é como as outras. As regras do jogo mudaram. Esta prova de fogo não se resolve com as velhas receitas». Elementar, meu caro Watson.
Natália foi, de facto, a derradeira personagem da vida cultural portuguesa. Jorge de Sena define como ninguém o seu perfil: alguém que se impôs na vida literária portuguesa «pela forma como soube transformar o escândalo numa espécie de terror sagrado do provincianismo embevecido.»
Eduardo Pitta, Lembrar Natália.
Manuel Alegre deu, ontem à tarde, o tiro de partida para a campanha eleitoral, com um discurso (a avaliar pela versão difundida pela Lusa) politicamente pobre, a reboque da conjuntura, do imediato, do primário. Sem chama, nem desígnio. No fundo, a ideia de combate, resume-se no seguinte: 1) Cavaco Silva «não está isento de responsabilidades» relativamente à crise em que José Sócrates e o PS mergulharam o país; 2) Manuel Alegre defende o «Estado Social» e vetará todos os diplomas do Parlamento que visem «acabar» (expressão tão vaga) com os serviços públicos na Saúde, na Educação e na Segurança Social. O resto do discurso pertence ao domínio do vazio, da abstracção, tal como este exemplo, um amontoado de palavras que nada diz: «Os portugueses esperam que o Presidente fale com clareza nos momentos difíceis, que não se esconda por detrás de formalismos, ambiguidades e silêncios geradores de equívocos. A clareza e a frontalidade são um factor de estabilidade para a democracia». É pouco, muito pouco.
Fidel Castro, depois de quatro anos de reflexão, por motivo de doença, entrou na fase de «autocrítica». Há dias assumiu a responsabilidade da feroz repressão, das permanentes perseguições e prisões a que o castrismo submeteu, desde o final dos anos 60, os homossexuais cubanos. Agora, concluiu o ditador das Caraíbas que «o modelo cubano não serve nem para nós». Não serve para os cubanos, nem a «apropriação dos meios de produção pelo Estado» serviu em parte alguma, nem na URSS, nem na Europa de Leste, nem na China. Continua a servir apenas na cabeça dos dirigentes comunistas e da extrema-esquerda portuguesa que, ainda hoje, nos acenam com a intervenção do Estado na economia como solução milagreira para os nossos males. Em Cuba, os manos Castro, depois de cinquenta anos de desastre de «economia de Estado», andam a tentar privatizar fábricas e a estimular a actividade económica privada como solução para saírem da miséria; aqui ainda nos propõem como solução a «nacionalização dos sectores estratégicos da economia». Não aprenderam nada!
Os genuínos apoiantes da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aqueles que, depois das últimas presidenciais, se aconchegaram em redor do MIC, e que alimentaram o sonho de criarem um novo partido, um novo PRD, saído de dentro do PS, começam a dar sinais de desnorte. Como não querem atirar para cima do candidato as responsabilidades das dificuldades, atiram para cima dos socialistas a despesa do fracasso eleitoral que se advinha. Ora dizem que as dificuldades provêm do facto do poeta-candidato estar colado ao «partido do poder e cujo Governo e primeiro-ministro está profundamente desgastado.»; ora avançam com a «falta de empenho de dirigentes e militantes socialistas à candidatura» de Manuel Alegre. Perante as circunstâncias pouco animadoras, ensaiam uma fuga para a frente: «os ingredientes para o sucesso da actual candidatura de Manuel Alegre não podem assentar nos apoios partidários», mas sim nos «movimentos espontâneos e organizados de cidadãos não inspirados partidariamente», como se pode ler num comunicado do tal MIC. Este «novo» rumo – uma candidatura «independente» – é o reconhecimento das más opções estratégicas do candidato, tanto quando impôs a sua candidatura ao PS, como quando escolheu o BE para principal apoio partidário. Cavaco Silva, desta vez, pode dormir descanso.
José Sócrates e Passos Coelho trocaram recados sobre a aprovação do Orçamento de Estado, um em Matosinhos, outro em Castelo de Vide, como quem joga xadrez por correspondência. Acredito que nesta partida não vai haver xeque-mate, mas até ao lavar dos cestos é vindima. Cavaco Silva também é da mesma opinião e disse, hoje, em Sernancelhe, que «não lhe passa pela cabeça» que não se chegue a acordo para a aprovação do Orçamento. E o senhor Presidente tem, certamente, informações que não estão ao alcance de todos. Enquanto a coisa não se compõe, vou para a cozinha praticar as «Receitas Caseiras para Mulheres Infiéis» e as «Receitas Afrodisíacas para Amantes Imorais» (Edições Ramiro Leão). Quanto ao primeiro, Regina Louro, autora do texto introdutório escreve que «O fundamental é o tempero»; quanto ao segundo, Ana Paula Dias escreve «trocamos os destroços e destrocamos de ossos». A gastronomia tem segredos que a política desconhece. E por aqui me fico.
Vasco Pulido Valente, Uma biografia de Salazar, Público, 05.09.10, excertos:
Saiu finalmente uma biografia de Salazar (a de Franco Nogueira era almanaque hagiográfico sem sentido ou valor). A biografia é de Filipe Ribeiro de Menezes, doutorado em Dublin e professor de uma universidade irlandesa. (…) vale a pena ler esta longa e minuciosa história do homem que governou, sem sombra nem rival, gerações sobre gerações de portugueses e conseguiu criar uma cultura política que hoje ainda pesa - e pesa muito - na democracia que temos.
Para quem viveu sob Salazar – e já deve haver pouca gente –, o que falta nesta biografia é, naturalmente, a atmosfera do regime. Porque não existia uma ditadura, existiam milhares. Cada um de nós sofria sob o seu tirano, ou colecção de tiranos, na maior impotência. A família, a escola, a universidade, o trabalho produziam automaticamente os seus pequenos "salazares", que, como o outro, exerciam um autoridade arbitrária e definitiva que ninguém se atrevia a questionar. A deferência – se não o respeito – por quem mandava era universal; e essa educação na humildade (e muitas vezes no vexame) fazia um povo obediente, curvado, obsequioso, que se continua a ver por aí na sua vidinha, aplaudindo e louvando os poderes do dia e sempre partidário da "mão forte" que "mete a canalha na ordem".
Só num ponto, essencial, Salazar perdeu. Queria um país resignado à pobreza cristã e Portugal, se continua pobre, não se resigna agora à pobreza com facilidade e abandonou a Igreja. (…) E o mundo moderno desorganizou o Portugal manso e miserável que ele com tanta devoção construíra. O preço que pagámos pela ditadura desse provinciano mesquinho é incalculável.
Mantenho-me, por convicção democrática e por formação, intransigentemente fiel ao princípio da presunção de inocência até ao trânsito em julgado de sentença condenatória. Em qualquer caso e com quaisquer arguidos.
«Acho que o primeiro-ministro Cavaco Silva só foi tão bom porque tinha Mário Soares como Presidente.»
Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, em entrevista ao i, 04.09.10.
Chegou ao fim o mês da preguiça – Agosto, o mês zero em qualquer calendário que se preze. Começa, agora, um novo ano. O horizonte próximo trás, na agenda política, para além da má vida a que os portugueses estão habituados, a discussão do Orçamento de Estado e a eleição do Presidente da República. Nem uma, nem outra vai alterar o que quer que seja, e muito menos sacudir o marasmo em que PS e PSD, aos poucos, enclausuraram o regime. O PSD, depois de tantos anos na oposição, ainda anda, no escuro, às apalpadelas, a tactear o caminho para chegar ao poder. Tanto pede, em Quarteira, que o governo se demita até 9 de Setembro, como lembra, em Castelo de Vide, que o governo tem ainda três anos para governar; tanto ameaça com o voto contra Orçamento, como admite a sua viabilização; tanto apresenta uma proposta de revisão constitucional milagreira, como a recolhe à mansidão dos medos e dos equívocos. Quanto a Cavaco Silva, uma vez reeleito, vai pacientemente continuar a boiar como até aqui: vai aguardar pelo «comportamento dos indicadores económicos» e pelo «sentir dos portugueses» medido em sondagens, o que significa que só se decidirá pela dissolução do Parlamento em caso de uma derrocada pouco previsível. Para quem desespera com a governação socialista, e a queria afastar antes do prazo de validade, os ventos não parecem estar de feição nos próximos tempos. E avolumam-se os indícios de que Passos Coelho pode ser posto em causa internamente antes das próximas eleições legislativas. Somos um povo sereno, de brandos costumes. Acreditamos que há sempre um milagre a meio do caminho, antes da desgraça. Até cultivamos o caminhar de joelhos em direcção ao sítio dos milagres. Se não nos tirarem o 13º mês estamos certos que a «coisa se resolve», o que não deixa de ser verdade. E, a partir de Fevereiro, esperamos que chegue o próximo mês de Agosto – o mês da preguiça.
(Publicado no Aparelho de Estado)