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Efemérides – II.

por Tomás Vasques, em 05.11.09

Comemora-se por estes dias não só o desmoronar do «império soviético», mas também a revolução que lhe deu origem – a revolução de Outubro de 1917. Uma vez ou outra, aqui, neste espaço, discuti pontos de vista diferentes, divergências com um ou outro militante do PCP. Nessas conversas, para melhor demonstrar o meu ponto de vista sobre as consequências desta ou daquela posição política evoquei exemplos do que se passou na União Soviética. Os meus interlocutores escreviam invariavelmente que eles falavam em alhos e eu respondia em bugalhos, ou seja, eles falavam em Portugal e eu respondia com a União Soviética. Os meus interlocutores não tinham (não têm) razão. As suas propostas políticas foram testadas na URSS e deram os resultados que todos conhecemos. E é o próprio Avante, em Editorial, que confirma «inequivocamente» que o PCP quer repetir aqui a revolução de Outubro: «Os comunistas portugueses continuam (…) a assumir inequivocamente que as raízes essenciais do projecto de sociedade pelo qual lutam em Portugal se situam nos valores, nos princípios e nos êxitos da Revolução de Outubro.» Se assim é, não compreendo onde estão os bugalhos.

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publicado às 18:41

Crucifixos – II.

por Tomás Vasques, em 05.11.09

Admito que a existência de crucifixos nas salas de aula pode não ser irrelevante (ao contrário do que escrevi em texto anterior) para quem professa outra confissão religiosa, o que não é o meu caso: sou agnóstico. Olho para essas reminiscências em vias de extinção com a condescendência e a tolerância de quem não sente a liberdade e a cidadania diminuídas pela presença de tais símbolos, sejam estes, sejam o de qualquer outra religião. Não me incomodam, como não me incomoda ver presépios (outro símbolo religioso) em espaços públicos, nomeadamente nas ruas. Às vezes, quando me cruzo na rua com alguém de burka (há símbolos religiosos por todo o lado) fico incomodado. Não por mim, nem pela minha liberdade e cidadania, mas pela mulher que aí se esconde. Assalta-me a dúvida: é uma opção dela ou está obrigada (pela comunidade familiar) a usar burka contra a sua vontade? De resto, quando vou a Salvador da Bahia corro a um terreiro – santuários do candomblé - visitar uma Mãe-de-Santo que fale com um Orixá e me trace  o «destino»; de seguida, visito a Igreja do Bonfim, onde peço ao senhor padre que me benza as «fitinhas da sorte». Depois, sento-me numa esplanada a beber uma cerveja gelada e a contemplar o mar: já não me lembro o que a Mãe-de-Santo me disse e atiro as «fitinhas da sorte» ao mar. E sorrio, dando graças aos Deuses por ser agnóstico.

 

(Publicado aqui)

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publicado às 15:22

Crucifixos.

por Tomás Vasques, em 05.11.09

A Igreja católica passou séculos amancebada com o Estado, ditando reis, dinastias, territórios, usos e costumes, regimes, tribunais e condenações. Era a religião oficial do Estado. Esse tempo acabou há muito. Aliás, segundo o cónego João Seabra, num livro recentemente publicado, intitulado O Estado e a Igreja no início do século XX, foi a Igreja que, em Portugal, sugeriu a separação da Igreja do Estado, em 1910. Escreve o sacerdote que o arcebispo de Évora da altura, D. Augusto Eduardo Nunes, manifestou a Teófilo Braga e a Afonso Costa a abertura da Igreja para rever o estatuto de que gozava na Monarquia e «que não se podia manter». Seja com for, a publicação da Lei de Separação do Estado das Igrejas data de Abril de 1911. A existência de crucifixos nalgumas salas de aula é uma reminiscência do estatuto da Igreja católica até ao início do século XX (reminiscências que depois de 1933 voltaram a ser acarinhadas). Mas estas questões não devem ser tratadas como uma «guerra ideológico-religiosa», mas sim com bom senso e com tolerância. Nestas situações, a patetice – um dos mais sólidos substratos culturais do radicalismo – solta-se: uns dizem que Pol Pot é um menino de coro ao pé destes malandros que querem tirar os crucifixos das salas de aulas; outros, em resposta ao mesmo nível, querem transformar um facto irrelevante na vida das pessoas numa cruzada de «mata-padres». O melhor é deixá-los, a ambos os lados, sozinhos, a exercer o seu direito à patetice.

 

(Publicado aqui).

 

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publicado às 12:00



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