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Os resultados eleitorais deixam duas pistas importantes: a direita pode entrar num processo de recomposição e um partido mais à direita, como o CDS-PP, a prazo, pode transformar-se no maior partido da direita portuguesa; a extrema-esquerda, no seu conjunto (PCP-BE), numa situação muito favorável (a absorver múltiplos descontentamentos), não atingiu os anunciados 20%, o que significa que o PS não vai perder tão cedo o seu papel de grande partido da esquerda portuguesa.
Primeiro, os socialistas ganharam as eleições legislativas, com uma margem inequívoca, depois de quatro anos e meio de governação; segundo, os eleitores exigiram ao PS, na próxima legislatura, enquanto governo e no Parlamento, mais diálogo e mais consenso com as restantes forças políticas; terceiro, os portugueses esperam do próximo governo – como de resto esperam de todos os governos – que as suas condições de vida melhorem, que o país se modernize e que a democracia e a liberdade se aprofundem; quarto, estas eleições provaram, mais uma vez, que os portugueses quando votam julgam quem governou, mas também quem esteve na oposição, o que uns e outros fizerem para o interesse comum.
Gosto do Carlos Vidal porque ele nunca esconde o que lhe vai na alma, nem pretende ser «politicamente correcto». Resumiu, assim, os resultados eleitorais de hoje: vitória retumbante da direita (PS) e da extrema-direita (CDS/PP). Esta é a verdade por detrás da cortina do hotel Vitória. Mas Jerónimo de Sousa encolhe-se, faz de dançarino e de avô cantigas. Assim, nunca verá carros a arderem nas ruas, montras de bancos partidas e, pior do que isso, «entra no jogo democrático» e é ultrapassado, pela esquerda, por Louçã, um «puto» da burguesia que nunca entrou numa fábrica e andou metido com a padralhada.
Os principais jornais de referência europeus destacam, nas respectivas edições on-line, a vitória do PS nas eleições em Portugal. Em todo lado se escreve que Ângela Merkel e a CDU alemã (mais a CSU da Baviera) obtiveram um grande vitória eleitoral ao obter 33,8% dos votos nas eleições disputadas, hoje, na Alemanha. O PS, por cá, recebeu a confiança de 36,5% e parece, a acreditar na maior parte dos comentadores da noite televisiva, que perdeu as eleições. Nós, portugueses, somos assim.
O ponto de partida para estas eleições, para além dos resultados reais das eleições europeias, é este. É a partir daqui que se devem fazer leituras dos resultados eleitorais de hoje.
O CDS-PP e Paulo Portas cumpriram um dos objectivos principais nestas eleições: ficar à frente do BE e do PCP. E é muito curioso como os portugueses distribuíram os seus votos: o PS só obtém uma maioria no parlamento com o PP (excluindo o bloco central).
Pelo que percebi hoje, se o Futebol Clube do Porto ganhar, esta época, o campeonato nacional com menos de 8 pontos sobre o segundo classificado, perde o campeonato e os vencedores serão os 2º, 3º e 4º classificados. Foi mais ou menos isso, não foi?
Maria José Nogueira Pinto evidenciou em demasia a sua irritação pelos resultados: «não percebo onde está a derrota: o PS perdeu (a maioria absoluta), o PSD e o CDS subiram em relação às últimas eleições. Se isto é uma derrota não sei o que é uma vitória.»
Manuela Ferreira Leite proferiu um digno e responsável discurso de derrota, como era de esperar.
Depois do PS, o CDS-PP e o BE são os dois inequívocos vencedores desta noite eleitoral. Resta saber, neste momento, qual dos dois ficará como terceira força política.
Um dos derrotados da noite é Mário Nogueira, o dirigente do sindicato dos professores. O PCP não capitalizou uma migalha do descontentamento dos professores. O PCP, a partir destas eleições, vai repensar a sua estratégia: ou passa à luta armada ou, então, passa a encarar a luta política, no quadro democrático, com uma «flexibilidade táctica» diferente. Ficar «parado», como está desde o desaparecimento de Álvaro Cunhal, significa que vai definhando ano a ano, eleição a eleição. Definitivamente, o BE ocupou o espaço de crescimento do PCP.
«Neste contexto quem perdeu foi o partido socialista» – disse Ana Drago, com um rasgado sorriso, na TVI. Bernardino Soares alinha pelo mesmo diapasão. Ninguém, entre os dirigentes partidários, é capaz de reconhecer a vitória do PS e de José Sócrates nestas eleições.
Pelas declarações partidárias até ao momento, todos os partidos ganharam estas eleições, à excepção do PSD. O BE, pela boca de Luís Fazenda, o CDS-PP, pela voz de Mota Soares e o PCP/CDU rejubilaram, todos à uma, pela grande vitória que constitui a «derrota do PS» ou a «derrota da direita». Paulo Rangel alinha também na «derrota» do PS. Voltaram todos à «maioria absoluta», esquecendo os resultados das europeias. É por conclusões destas que os portugueses, quando lhes dão oportunidade, dizem o que pensam e o que lhe vai na alma.
Já se ensaia a teoria da «derrota» do PS: perdeu a maioria absoluta. É uma teoria de mau perdedor.
Passos Coelho é um dos vencedores destas eleições, mesmo sem ser candidato a deputado e, sobretudo, por isso.