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É frequente os analfabetos queixarem-se de falta informação. Eles ainda não perceberam que a informação só é importante para quem a sabe ler.
Maria João Pires anunciou que vai renunciar à nacionalidade portuguesa. Quer tornar-se cidadã brasileira porque está farta dos «coices e pontapés» que recebeu do Governo português. A empregada doméstica do meu prédio, uma brasileira jeitosa, há meia dúzia de dias, quando nos cruzámos na escada, disse-me que estava à beira de adquirir a nacionalidade portuguesa. Está farta dos «coices e pontapés» que o Governo brasileiro lhe dá - confidenciou-me. Esteve desempregada durante 3 anos. Troca por troca, prefiro a brasileira. Não toca piano, nem fala francês, mas as escadas do meu prédio estão exemplarmente limpas. Temos por cá muitas prima-donas.
Ontem à noite fui assistir a uma das peças de teatro em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas. A arte do crime, encenada por Juvenal Garcês e interpretada por Simão Rubim, Vanessa Agapito e Emanuel Arada. Gostei da peça, da interpretação e da encenação, aliás na linha estético-teatral da Companhia Teatral do Chiado, desde O Regresso de Bucha e Estica, A birra do morto, Nápoles Milionária ou A arte da comédia, no começo dos anos 90 e com a marca de autor de Mário Viegas, a que Juvenal Garcês, a partir de 1996, deu uma fiel e sábia continuidade. A Companhia Teatral do Chiado é uma digna instituição cultural de Lisboa: mantém a linha de rumo legada por Mário Viegas, criou uma corrente de público e promove o gosto pelo teatro, sobretudo entre os mais jovem. E anima culturalmente o Chiado. E tudo isto sem apoios financeiros do Estado ou da Câmara, o que não é usual no nosso país. Muitos pensaram que o desaparecimento de Mário Viegas significava o fim da Companhia Teatral do Chiado. Estes últimos 14 anos provaram que não. Tempo suficiente para a Câmara de Lisboa olhar para Companhia e para a memória de Mário Viegas de outra maneira.
Não é que considere um gesto aprumado e de fino recorte dialéctico o fragmento da simbologia taurina – associada frequentes vezes à codificação mediterrânica da honra e vergonha – que levou à demissão do ministro Manuel Pinho. Mas parece-me mais aceitável uma atitude repentista de sincera irritação, com razão ou sem ela – «por qué no te callas?» –, do que o espectáculo diário da hipocrisia do salamaleque.
Rui Bebiano, A Terceira Noite.
Ninguém sabe, ao certo, o que Manuel Pinho quis transmitir com o seu gesto, ontem no Parlamento, a Bernardino Soares. Eu sou um diabo para o PCP? É uma hipótese. Meti os cornos ao PCP nas Minas de Aljustrel? É outra hipótese. Só Manuel Pinho sabe o que lhe passou pela cabeça naquele momento. É um gesto infantil, obviamente. Mas, inevitavelmente, com direito a guia de marcha quando é feito naquele local e naquelas circunstâncias. Quando uma infantilidade pode ser interpretada como um insulto. E, no entanto, ao contrário de uns sisudos que por aí passeiam o seu «ar grave», eu gostava do estilo de Manuel Pinho: descontraído, desbocado, aligeirado, às vezes. Mas, muita gente, aprecia mais (exige mesmo, sobretudo aos «homens de Estado» no exercício das suas funções), o estilo carrancudo e o ar sério dos mangas-de-alpaca. No fundo, o estilo que Salazar ensinou, praticou e deixou escola.
O senhor António vive numa casa que dá para um pátio na Rua Nova da Piedade. Ele, a mulher e dois filhos. O senhor António faz biscates, repara um esquentador aqui, substitui uma torneira ali, acode a um curto-circuito acolá. A mulher cuida dos filhos e da lida da casa e, quando lhe sobra tempo, faz limpezas onde calha, mas sempre nas imediações. Há muitos anos que me socorro do senhor António, homem falador, com brio profissional e aprumado no vestir. Sei que costuma ir, há muitos anos, passar férias para o parque de campismo de Monte Gordo. Hoje, à hora de almoço, quando subia a Rua Nova da Piedade, em direcção à Praça das Flores, encontrei o senhor António de chinelos, calções de banho e uma t-shirt. Está de férias. «Faço sempre férias nos primeiros quinze dias de Julho» – disse-me. Do pátio vinha um intenso cheiro a sardinhas assadas. «Então, não foi para Monte Gordo?» – Interroguei. «Não. Este ano não deu. É a crise. Mas, já disse ali à patroa, isto aqui é quase a mesma coisa: vesti o calção de banho e estou a fazer uma sardinhada. Só não dá para um banho de mar, mas fica para o ano que vem». Despedi-me do senhor António e, em voz baixa, como quem fala para os seus botões, fui repetindo a sua frase: é a crise; é a crise!
1. – Agradeço as palavras simpáticas do André Couto ao escolher o Hoje há conquilhas como blogue da semana no Delito de Opinião. Com um grande abraço.
2. A Ana Paula Fitas, a Teresa Ribeiro, o José Teófilo Duarte e o Carlos Santos tiveram a gentileza de atribuir ao Hoje há conquilhas o Prémio Lemniscata, mais uma corrente blogosférica em que, cada um revela o apreço pelas suas leituras blogosféricas preferidas, contrariando quem, com presunção e desdém, se pretende situar «acima» destas «inutilidades». Este «espírito» de comunicação e de interactividade faz parte das regras desta «comunidade». Há quem esteja permanentemente a utilizar-se do «sistema», clamando que está de fora. Depois deste recado e com o respeito devido a todas as opiniões, digo: presunção e água benta, cada um toma a que quer. Desta vez, depois de percorrer a barra de links, passo na indicação de sete blogues. Agradeço a todos, com um grande abraço.
Nuno Álvares Pereira descobriu o caminho marítimo para a Índia e António Guterres vendeu a rede fixa à PT. Se assim é, não falamos mais no assunto.
Rui Bebiano não nos dá descanso, pelo menos aos interessados nestes temas. Ainda estava a ler a entrevista de Ismail Kadaré à Folha de São Paulo e já me remete para Asja Lācis, no El País, de Montevideu.
Pelo menos em Política, os extremos tocam-se. O radicalismo de direita e o radicalismo esquerdista trocam, entre eles, galhardetes e trovas de amor à volta da fogueira. Nos intervalos, uns tecem loas a Salazar e outros a Lenine. Mas, mal lhes cheira a PS, voltam aos beijos na boca.
A felicidade é então o bem supremo, o que há de mais esplendoroso e o que dá um prazer extremo; estas qualidades não podem ser dissociadas, tal como as encontramos no epigrama de Delos: O mais nobre é a justiça e o mais de desejável a saúde;/ mas o que de mais doce há/ é encontrar o que se ama.
(Aristóteles, Ética a Nicómano, tradução, prefácio e notas de António de Castro Caeiro, Quetzal, 2009).