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Gasolina (Teorema), de Quim Monzó (Barcelona, 1952);
Cabeça a Prémio (Quetzal), de Marçal Aquilino (Amparo, S. Paulo, 1958).
De Cada Amor tu Herdarás Só o Cinismo (Quetzal), de Artur Dapieve (Rio de Janeiro, 1963);
A Ofensa (Porto Editora), de Ricardo Menéndez Salmón (Gijón, 1971);
Portugal é o segundo país da Europa onde se lê menos livros.
PSD recusa Jorge Miranda e elogia escolha do PCP.
Em relação ao post anterior, acrescento que, até ontem, não conhecia o senhor Don Tapscott, muito menos a sua obra. Mea culpa. Por isso, chamo a atenção para o que sobre o senhor escreve Joana Lopes. Transcrevo uma das respostas que Don Tapscott deu numa entrevista a Jorge Nascimento Rodrigues, após a publicação do seu último livro:
D.T. - De facto, pela primeira vez na História da Humanidade, as crianças têm mais conhecimentos, do que nós, sobre um aspecto - direi crucial - do desenvolvimento da nossa sociedade. Isto é bom para aqueles adultos que são capazes de aprender com os miúdos. Mas mete medo e gera receios à multidão de todos os outros. Pais e professores crêem que já não conseguem "proteger" os miúdos da pornografia ou da literatura que inflama ódio [mas não está ela ao virar da esquina?]... Há dois extremos, ambos conservadores, nesta discussão: um dos lados vê estas crianças como "vítimas coitadinhas" e o outro como perigosos guerrilheiros. Em que ficamos? Um cínico dirá: são as duas coisas. A meu ver, ambos são pontos de vista nocivos para a liberdade de expressão e os direitos da criança.»
O Paulo Ferreira chama a atenção para o delírio das declarações de um «louco» canadiano que afirma: «O Programa Magalhães é a mais sofisticada e avançada implementação das tecnologias de informação em educação no mundo». Ainda por cima, o Expresso, que dá guarida a estas declarações, diz que se trata de um «guru da tecnologia». Na próxima sexta-feira, provavelmente, a TVI vai apresentar um DVD, no qual, a partir Ontário, uma prima do «guru» confessa que o primo «nunca bateu bem da bola».
Não vi a entrevista ao primeiro-ministro. Perdi-me no Liverpol-Arsenal – um jogo de loucos com 7 golos na segunda parte, dos quais 2 foram marcados nos descontos finais. Um espectáculo de primeira grandeza. Acabado o jogo, folheei os meus blogues preferidos à procura de opiniões sobre a entrevista. Entre outros, o meu amigo João Gonçalves explica, à sua maneira, que a entrevista correu bem a Sócrates. Não consigo trocar um livro por um debate, nem um jogo de futebol por uma entrevista.
Inaugurar as obras de requalificação do Largo António de Oliveira Salazar, em Santa Comba Dão, a 25 de Abril, é uma pequena provocação que a democracia absorve, com naturalidade. Evocar em sessão pública, por exemplo, a data do assassinato de Humberto Delgado, no tempo de Salazar, em vez de porco no espeto e fanfarra, metia polícia e prisões. Gosto mais de porco no espeto e fanfarra do que de polícias e prisões.
Na próxima quinta‑feira, dia 23, será apresentado em Lisboa o romance O Mundo Sólido, de Paulo Sousa, editado pela Deriva. A sessão terá lugar na Livraria Bulhosa Books & Living de Entrecampos (Campo Grande, 10 B), a partir das 18:00h.
Blues de Um Gato Velho (Teorema, 2009), de Óscar Málaga Gallegos, é uma história de amor, mágica e triste, como devem ser todas as histórias de amor. O autor, um escritor peruano (Lima, 1946), viveu na China, onde leccionou Cultura Latino-Americana e Língua Espanhola. Aí partilhou o destino com uma rapariga do sul da China, Sha Li Pi, que lia Charles Bukowski na versão original e lhe entrou pela vida dentro, em Pequim, na carreira de autocarro 302: «antes que a minha erecção a surpreendesse, pedi-lhe desculpa». A partir daí, numa narrativa poética, o amor, a traição, a magia e o gato esmagado contra a parede (que depois de morto empreendeu uma longa viagem até ao Egipto) desenvolvem-se ao veloz ritmo latino-americano, mas com a serenidade oriental. Numa sensualidade em permanente reflexão. «E escrevi este livro. Para vencer o destino que calha aos homens que estão sempre a olhar para o mar».
A senhora bastonária da Ordem dos Notários acaba de instituir um precedente de consequências imprevisíveis: prestar informação, a todos os cidadãos que se lhe dirijam a solicitar conhecimento de toda e qualquer escritura realizada, por qualquer outro cidadão, em qualquer notário do país. Esta informação constitui, nas palavras da dita bastonária, «um serviço público». Não me parece mal, caso todos os cidadãos requerentes sejam tratados da mesma maneira, ou seja, que a senhora bastonária, de imediato, solicite essa informação a todos os notários e vá dando conhecimento dos resultados da diligência. Se assim não for, a senhora bastonária, por ressabiamento contra medidas legislativas do actual governo, discriminou o cidadão José Sócrates, concedendo ao cidadão «jornalista de investigação» um previlégio negado aos demais cidadãos. E se assim for, a senhora bastonária não prestou nenhum «serviço público»; apenas colaborou numa acção mediática contra um cidadão. E, acima de tudo, é desta gente que a democracia (e a transparência) se tem de defender.
Isto do Presidente e do Governo é como marido e mulher na lide da casa. Mesmo que o marido diga isto ou aquilo, na casa é a mulher que manda.
Ramalho Eanes, Expresso, 17 de Julho de 1987.
«A caça às bruxas parte necessariamente da ética, da responsabilidade e do altruísmo do acusador (sem essa presunção o exercício não era possível). E promete um castigo exemplar aos vários bandos de putativos celerados. Mas ninguém se preocupa em apanhar nenhum celerado em especial. A vida de cada português – pelo menos dos portugueses da classe média – avançou quase sempre por métodos que dispensam (e não toleram) escrutínio e a sociedade inteira assenta numa fraude colectiva e tácita, que por prudência e vontade de sobreviver não se discute. É, por isso, que se fala tanto em corrupção e não se prende ninguém por corrupção. A caça as bruxas não se destina, no fundo, a caçar bruxas com nome, cara e cadastro. Só por si, o alarido alivia a inveja e a consciência.
O "enriquecimento ilícito" ou, melhor, o "enriquecimento que se suspeita ilícito" é o crime simbólico desta crise. Não vale a pena insistir no ónus da prova (que uma investigação aparentemente inverte) ou nos direitos básicos, que os justiceiros não se importam de pôr de parte. Nem vale a pena perguntar quantos casos de "enriquecimento ilícito" se calcula que existam e quantos chegarão ao fim de quanto tempo a um tribunal e a uma sentença (calculo que poucos). A retórica que por aí vai não passa de uma rejeição para consumo público da miséria que ficou à mostra e que, de resto, os portugueses nunca ignoraram que lá estava. Brandir o "enriquecimento ilícito" equivale a brandir uma virtude rara e uma promessa de salvação iminente. Não custa nada. E paga bem.»
Vasco Pulido Valente, Público, 19.04.09.
Há sinais cada vez mais claros de que Cavaco Silva está a caminhar cauteloso, mas com um rumo determinado; no percurso, vai deixando marcas para Manuela Ferreira Leite o seguir sem se perder. A estratégia está bem pensada e poderia resultar, dadas as circunstâncias. Mas, por estranho que pareça, os telejornais da TVI, às sextas-feiras, são uma contrariedade: somos um povo de brandos costumes; a obsessão doentia não compensa. Antes pelo contrário.
Os moralistas têm vida curta entre nós; não só são gente de mau aspecto como se trata de pessoas cheias de inveja. Os Portugueses são sarcásticos, quando se trata de moral – de Gil Vicente a Eça, há uma larga tradição de textos sobre o assunto, mostrando que a moral é matéria para consumo estritamente privado. Na verdade, padres, juízes, beatas envelhecidas, fuinhas de toda a espécie, são pouco populares entre nós. É uma vantagem enorme que temos que agradecer ao destino.
Francisco José Viegas, Liberal à moda antiga (Bertrand Editora, 2008)