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||| Abril. Arrepios. Jovens.

por Tomás Vasques, em 29.04.09

 

 

1. A Cristina, a Sofia e o Rui Perdigão, três das minhas leituras habituais, desafiaram-me a contar onde é que eu estava no dia 24 de Abril de 1974. Com atraso, e laivos neo-realistas, próprios da época, aqui vai: morava, então, na Mouraria e, todos os dias, às sete da matina, descia a pé até à Rua da Palma, onde apanhava um autocarro para Sacavém – para a Escola Prática de Serviço de Material, o quartel onde cumpria o serviço militar obrigatório. A minha memória do «antigamente» está muito presa aquela casa, na Mouraria. Um ano antes, nos primeiros dias de Abril de 1973, bateram-me à porta já depois da meia-noite. O «carteiro» foi breve e lacónico: - «o fulano tal falou na Pide, houve uma vaga de prisões, e eu vou partir agora para Paris. Ele não deve ter falado de ti e, por isso, tens de aguentar isto». Estas coisas eram assim: simples e directas. Fechei a porta e tomei, de imediato, a decisão que me pareceu mais racional: queimar todos os papéis manuscritos irremediavelmente comprometedores em caso de prisão, sobretudo actas de reuniões, relatórios de actividades e por aí fora. Munido de todos os papéis e de uma caixa de fósforos, instalei-me na casa de banho madrugada adentro. A operação era simples: enchia a sanita de papéis, pregava-lhe fogo e via-os arder até se desfazerem em cinza negra. Com muita mágoa pela informação derretida. Depois, puxava o autoclismo e repetia a operação, enquanto o estuque do tecto enegrecia aos poucos. Lá para as três da manhã, à quarta ou quinta queimada, a sanita estilhaçou-se em migalhas envoltas num estrondo que mais parecia uma bomba do que porcelana de Valadares. Aguardei, em tremedeira e batidas cardíacas descontroladas, que os vizinhos me batessem à porta, acompanhados da polícia, enquanto procurava, com ingenuidade, forjar uma «explicação» para o sucedido. Não aconteceu nada: os vizinhos – à portuguesa – não se deram ao incómodo de saber a razão de serem acordados com um estrondo daqueles às três da manhã. Foi pois, desta casa, que a 24 de Abril de 74, fiz o percurso habitual até Sacavém. Naqueles dias, circulavam «informações» de que o pessoal das Caldas iria reagir, mas nada que me convencesse. No dia 25 repeti e percurso e fiquei «aquartelado» até 30 de Abril, dia em que me «levaram» para Caxias guardar os «pides» que, entretanto, iam chegando à medida que iam sendo apanhados. Só voltei «à vida», só respirei os novos ares de Lisboa a 4 de Maio. Tão perto e tão longe dos acontecimentos.

 

2. O meu amigo Rui Perdigão, o José Simões e a Eugénia de Vasconcellos tiveram a amabilidade de atribuir ao Hoje há conquilhas o prémio Este blogue é tão bom que até arrepia, o que para mim significa que lêem o que por aqui se escrevinha com agrado. Retribuo na mesma medida porque, qualquer dos três, são leituras recomendáveis. Devo nomear outros blogues que aprecio e que leio com agrado. Podia nomear várias dezenas, de pendor mais político ou de pendor mais cultural, mas hoje fico-me pelo pendor mais local: A defesa de Faro, Avenida Central, Nabantia, Praça da República em Beja (o meu amigo João Espinho não se livra destas nomeações) e Casario do Ginjal.

 

3. A Adriana – a socrática que mais admiro – e o Ricardo & Companhia decidiram atribuir-me o prémio Jovens que pensam. Bom, como diz a Adriana, Pensar, penso, mas já não sou legalmente jovem! Lisonjeia-me a atribuição, a qual agradeço, mas preocupam-me os legalmente jovens que não pensam. E há por aí muitos, infelizmente.

 

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publicado às 22:57

||| Interrogatórios?

por Tomás Vasques, em 29.04.09

 

 

Há meia dúzia de meses, nas cercanias da escola secundária de Fafe, duas centenas de alunos receberam a Ministra da Educação com vaias e arremessando ovos contra a viatura oficial. É uma forma de protesto. Radical, mas uma forma de protesto admissível em democracia. Provavelmente, os alunos presentes foram incentivados pelos professores que se encontravam no auge da luta contra a Ministra, o que não é relevante do ponto de vista do protesto em si. O que não é admissível é a Inspecção-Geral de Educação proceder a interrogatórios aos alunos que participaram no protesto. Não conduzem a lado nenhum, mas diminuem os direitos, as liberdades e as garantias dos cidadãos. Não se trata de uma questão na esfera de competências da Inspecção–Geral de Educação.  Das duas, uma: ou o acto dos alunos, praticado fora da escola, é ilícito e, neste caso, entregue-se à polícia e ao Ministério Público o apuramento da ilicitude e das responsabilidades; ou não é, e prossiga a vida. Quem exerce cargos públicos, nomeadamente políticos, deve saber que a sua acção está permanentemente a ser questionada e contestada. São as regras da democracia.

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publicado às 14:11

||| O país do deixar andar.

por Tomás Vasques, em 29.04.09

Uns quantos Directores Gerais da Administração Pública cessaram as comissões de serviço, regressando aos seus lugares de origem, porque não cumpriram determinados procedimentos a que estavam obrigados no desempenho das suas funções. Estamos tão habituados ao desleixo e ao deixa andar que, em vez de merecer aplauso, a medida foi criticada. E para fundamentar a apologia do desleixo e do deixa andar, uns dizem que se trata de uma «prepotência»; outros, dizem que se trata de uma «lei errada que não deve ser cumprida». Pobre país.

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publicado às 13:26



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