Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Praça dos Restauradores, em Lisboa. (fotografia do meu amigo LB).
A propósito da libertação da mais conhecida prisioneira dos campos de concentração das FARC, alguns com voz doce, dizem-me que, apesar de se sentirem felizes, se sentem ludibriados: vi Ingrid aparentemente de boa saúde depois de me terem convencido de que ela estava às portas da morte na selva Colombiana. E acrescentam: Muitos cidadãos mais sensíveis ter-se-ão sentido ludibriados. Ou seja, Ingrid só devia ser libertada em estado de coma. Assim, «aparentemente de boa saúde», é um logro. Não lhes basta uma pessoa ser sequestrada, aprisionada, maltratada, humilhada, durante 6 anos, sem culpa, sem acusação, sem julgamento. Exige-se que se atinja o estado de coma para que a sua libertação não fira a «sensibilidade» de cidadãos – tão culpados como Ingrid - que, nos últimos seis anos, não estiveram sequestrados, viveram com as suas famílias, foram de férias, almoçaram e jantaram onde lhes deu na gana. A «sensibilidade» destes cidadãos é, para mim, um enigma, uma coisa muita estranha.
Mais de 60 000 alunos fizeram, este ano, exame de Português. A média das notas atribuídas ficou abaixo dos 10 valores – 9,7 para ser preciso. Há quem meta a cabeça debaixo da areia, como a avestruz, e culpabilize a governação dos últimos 3 anos por estes tristes resultados. É preciso escavar mais fundo.
30º Festival de Montemor-o-Velho, de 25 de Julho a 16 de Agosto. Consulte o Programa.
Desculpem-me este mau jeito de alinhavar ideias em cima de pequenas frases. Mas não posso deixar de dizer que a actual discussão (política?) sobre a concretização de obras públicas versus sensibilidade social, só me faz lembra o nome de uma associação que muito prezo: Ni Putes, Ni Soumises.
Ismaïl Kadaré é um romancista albanês nascido em 1936. Estudou em Tirana e em Moscovo. O seu primeiro romance, O general do exército morto, publicado em 1963, narra as peripécias e as adversidades de um general italiano em busca dos soldados italianos mortos e enterrados, em terras albanesas, durante a «II Grande Guerra». É, de certo modo, um romance de culto entre os maoístas no final dos anos sessenta, princípios dos anos setenta, sobretudo pela caracterização do «indomável» povo albanês, numa altura em que o regime de Enver Hodja afrontava o todo poderoso partido comunista da URSS. Mas, Ismaïl Kadaré, apesar de ter sido deputado da Assembleia Popular de Tirana durante doze anos (1970-1982), assumiu a crítica, muitas vezes mordaz, ao regime comunista, na versão do país das águias. A filha de Agamémnon e o Sucessor – este escrito 20 anos depois do primeiro – publicado este ano em português (Dom Quixote) constitui um retrato literário da paranóia das ditaduras comunistas: da redução da dignidade humana e da liberdade individual a esterco, em nome dos «supremos interesses do partido» que, no fundo, mais não são que os interesses de um ditador e da nomenclatura que, diariamente, se humilha ao seu serviço para não descer à «profundezas do abismo». Estes dois curtos romances de Ismaïl Kadaré continuam actuais. Em Cuba ou na Coreia do Norte, por exemplo. Mas, também, porque há, entre nós, quem nos quer vender este «produto».
PS – Na leitura do Sucessor, lembrei-me, em várias passagens, de Carlos Carvalhas.
Durante uma curta ausência recebi a feliz notícia de uma operação do exército colombiano que libertou Ingrid Betancourt do cativeiro a que as FARC a submeteram durante seis anos. Esta libertação (e o modo que foi alcançada) é uma pesada derrota para as FARC (e para todos os seus amigos, os de cá e os de lá). É, praticamente, o início do desmoronar do gulag sul-americano, apesar dos milhares de inocentes que as FARC ainda mantêm em cativeiro.
PS – Aguardo com curiosidade o próximo Avante: deixam cair um manto de silêncio sobre o assunto ou atacam as «forças do imperialismo internacional» que se «imiscuíram» nos assuntos «internos» da Colômbia? A ver vamos!