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||| Crónicas de um Europeu de futebol.

por Tomás Vasques, em 14.06.08

 

 

7 de Junho de 2008, Sábado. A minha prima Hermenegilda é uma mulher desapaixonada, ao ponto de lhe azedar os dias e lhe avinagrar as palavras. O azedume ferve-lhe na boca. Podia cair na tentação de uma explicação fácil: nunca teve o menor bambúrrio de sorte nos amores – já lá vão três divórcios e nunca teve filhos. Mas não o faço, sobretudo, porque ela insiste que «viver sozinha é uma graça de Deus». Que seja! Isso não seria contas do meu rosário se ela não me atazanasse sempre que lhe dá na gana.

Ora, estava eu a banhos, entre amigos, deleitado a ver o jogo Portugal – Turquia, o primeiro jogo deste Europeu de futebol, quando a Hermenegilda me liga e, na sua voz de falsete, implacável, me diz: - «Pela barulheira já percebi que estás a ver o futebol. Este país está reduzido ao futebol. Não se fala em mais nada, como se não houvesse mais nada importante neste país para se falar.» Neste momento, Pepe introduziu a bola dentro da baliza dos turcos.

«Hermenegilda – respondi, depois de uns segundos de silêncio– pensei que estavas a ler qualquer coisa, que tinhas ido ao teatro, ao cinema, a um concerto». Ela sentiu a ironia na minha voz, e retorquiu: «Não te faças de sonso. Esta paranóia do futebol serve apenas para distrair este povo pequenino que, alegremente, se afunda todos os dias».

Despachei a Hermenegilda, como quem sacode um tapete: «Amanhã ligo-te, agora vou continuar a ver o jogo», enquanto admirava mais um daqueles carrosséis de Cristiano Ronaldo que se desfazem em espuma.

Queria gozar a vitória de Portugal, saborear até à última gota a minha cerveja, mas a Hermenegilda não me saía da cabeça: tem um percurso de vida ondulante. Frequentou a faculdade de letras, mas não acabou o curso – dedicou-se ao teatro. Foi sol de pouca dura, mas serviu de desculpa para os insucessos universitários. Nesses anos, de 69 a 74, a política não estava na lista das suas preferências. Mantinha com ela, nessa altura, conversas de horas e horas a fio sobre a necessidade da luta contra a ditadura e a guerra colonial, mas ela não estava para aí virada – chegou ao desplante de, em 1969, furar uma greve universitária, quando os trabalhadores da Carris e da Lisnave enfrentavam a polícia de choque. E agora, quando eu estou a ver o jogo Portugal – Turquia, a Hermenegilda vem-me dizer que: «Esta paranóia do futebol serve apenas para distrair este povo pequenino que, alegremente, se afunda todos os dias». Oh, meu querido Baptista-Bastos, onde é que ela estava antes do 25 de Abril?

 

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publicado às 01:34

 

O Não irlandês ao tratado de Lisboa foi motivo de regozijo, entre nós, como é natural, do pessoal da «pesada». Miguel Portas, pelo BE, e Ilda Figueiredo, pelo PCP, assumiram as despesas da festa. Estiveram também na boda alguns compinchas da direita «moderna» e «esclarecida»– uma espécie de  «compagnons de route» dos nossos dias. Fica por esclarecer se Pacheco Pereira já está disponível para «atacar» a presidente do PSD, pela qual se bateu nas últimas «directas».

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publicado às 00:55



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