Há quem ande com os cabelos em pé...
... ou quando o bom humor foge para debaixo do tapete.
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Não há maneira de escapar ao debate sobre a despenalização do aborto. Pelo menos até dia 11 de Fevereiro. Contudo, nestas últimas duas semanas, observo algumas alterações: a onda da liberalização do aborto, protagonizada pela ala radical pequena burguesa de fachada socialista (esta frase assenta que nem luva de pelica a certas pessoas) dos apoiantes do SIM, que parecia dominar ideologicamente, está a perder espaço para os defensores da despenalização. Pelo que vou lendo e ouvindo já começa a fazer escola a tese de que ninguém quer a liberalização do aborto, mas sim a sua despenalização. Outra tese que se começa a ouvir e a ganhar espaço é a seguinte: no quadro da actual lei (ou caso o Não vença) nenhuma mulher de classe média (e daqui para cima) será minimamente prejudicada. Em caso de necessidade mete-se no carro e vai até Badajoz (é mais perto de Lisboa do que do Porto ou de Faro, como o Porto é mais perto de Vigo do que de Lisboa e Sevilha mais perto de Faro do que de Lisboa). A despenalização do aborto é indispensável para as mulheres que nem sequer a Badajoz podem ir e que não têm alternativa senão correrem o risco de perderem a vida num “vão de escada” ou, se sobreviverem, irem malhar no calaboiço. E por estas eu voto SIM. A dúvida que se adensa, caso o SIM vença, como espero, é se tudo isto não fica de pernas para o ar. Ou seja, proliferem as clínicas para evitarem a ida a Badajoz para resolver os problemas de quem hoje não precisa, mas o SNS não responda satisfatoriamente a quem precisa, empurrando como hoje para o “vão de escada” e para a prisão sempre as mesmas. Se o SIM vencer, a partir de 11 de Fevereiro, inicia-se a verdadeira luta: o cumprimento da lei no SNS. A ver vamos!
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Com óculos (estudante de jornalismo sem óculos não cai bem), o "pai" e a falar com mortos - o crime quase perfeito.
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O referendo, Vasco Pulido Valente, Público 20.01.07. «Não gosto do referendo e sempre o achei perigoso e nocivo. Primeiro, porque diminuiu e desvaloriza a representação política. Segundo, porque inevitavelmente tende a deturpar o debate e a vontade do eleitorado. Nenhum problema complicado tem uma resposta de "sim" ou "não". E, como não tem, os dois lados de qualquer campanha, como, no caso, a campanha sobre o aborto, acabam por cair na "simplificação terrível" da demagogia. Basta abrir os jornais. José Pinto Ribeiro, por exemplo, disse isto: "Um ovo não tem os mesmos direitos de um frango." Fora o mau gosto, quem falou em frangos? Mas Pinto Ribeiro não foi o único. César das Neves, no seu estilo hiperbólico, avisou que "a vitória do "sim"" torna o aborto tão "normal" como comprar um "telemóvel". Uma ideia que não se distingue pela sua especial humanidade. Gentil Martins quer punir as mulheres que reincidirem em abortar. E até houve um bispo que resolveu comparar o aborto com o enforcamento de Saddam Hussein. Deus lhe perdoe. Significativamente, os grandes militantes do "sim" e do "não" vêm quase todos da classe média. Sucede que, para a classe média, o aborto não é um problema. Conhecendo bem os meios de contracepção e a "pílula do dia seguinte", quase nenhuma mulher (ou casal) da classe média é apanhada (ou apanhado) na necessidade de escolher entre um filho e um aborto. E, se as coisas por negligência ou acidente chegarem ao pior, não recorrem com certeza ao "vão de escada". Não admira, por isso, que vejam no aborto primariamente uma questão moral, de justiça social ou dos direitos da mulher e não hesitem em entrar numa polémica de "intelectuais", abstracta e violenta e, ainda por cima, incompreensível para quem, de facto, aborta.Mas, pior do que o resto, é que, a pretexto de permitir uma decisão directa do "povo", o referendo criou pouco a pouco um confronto azedo entre a Igreja e a esquerda. Ou, se quiserem, entre a esquerda (com o PS à frente) e os católicos. Não se percebe como, apesar da prudência do patriarca, a Igreja se deixou envolver numa causa puramente política, que não contribui para a reafirmação da sua doutrina (e pode, pelo contrário, mostrar o desinteresse do país por ela) e que, ganhe o "sim" ou ganhe o "não", nada, ou quase nada, mudará na prática. Como não se percebe que o PS, excepto por exorcismo, se meta numa querela que só serve para promover o Bloco. A Igreja julga que pode fechar a porta ao aborto e os políticos que se livraram de um grande sarilho. Erro deles. Com o "sim" ou o "não", o referendo é o princípio de uma longa guerra, não é o fim. »
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Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
Se alguém descrevesse
o meu rosto, pálpebra
a pálpebra, aleta a aleta
do nariz, a curva
de lábio a lábio,
a fronte agora, a face depois
eu poderia desdenhar
da solitária alheada
imagem num espelho.
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Culto da personalidade.
Os selos de correio, as estampilhas, e o culto da personalidade sempre estiveram muito ligados.
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Até amanhã.
(Catherine Abel, Moulin Rouge, Oil on canvas).
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