Memórias.
A propósito do post anterior veio-me à memória o Casal Ventoso- um nome bem conhecido, infelizmente, de todos os lisboetas e dizer a quem não conheceu aquele bairro o seguinte:
O Casal Ventoso não era como as Telheiras. Nasceu em finais do século XIX, desordenadamente, casa a casa, se assim se pode chamar, uma por cima da outra, numa encosta solarenga do Vale de Alcântara, bordejando a Rua Maria Pia. Com o tempo, vinte ou trinta anos, foi-se estendendo colina abaixo até à ribeira que por ali passava, transformando-se num bairro construído tábua a tábua, nas horas vagas, por gente humilde, homens e mulheres que, sem eira nem beira, afluíram de todos os pontos do país à grande cidade para alimentarem a nossa tardia revolução industrial.
E assim viveu, pacato e ignorado, pobre e sem condições de habitabilidade, como bairro operário, de gente trabalhadora e de boa vizinhança, até ao começo dos anos setenta.
As características do Casal Ventoso nos anos setenta, nomeadamente a exclusão social dos seus moradores, o desemprego e, sobretudo, o gueto urbanístico – um amontado de barracas sinuosamente empilhadas – facilitaram a transformação do bairro no principal e mais conhecido local de tráfico e consumo de drogas de Lisboa. E todos os lisboetas sabiam que assim era.
E todos os lisboetas se envergonhavam (ou se deviam envergonhar) daquele bairro existir na sua cidade.
No início dos anos noventa a situação degradante, humana e urbanística, tinha entretanto piorado substancialmente: os seus habitantes viviam em condições infra-humanas, enquanto milhares e milhares de consumidores de drogas usavam o bairro diariamente para compra de drogas e seu consumo; muitas centenas por lá vegetavam, literalmente, dia e noite, sem amarras familiares nem amigos que lhe estendessem uma mão, agarrados para sempre ao sonho de subirem aos céus; mais de mil famílias, mais de quinhentas crianças e adolescentes, misturavam o seu dia a dia entre a habitação degradada e a envolvência num ambiente dantesco de seringas espetadas, mortes diária por overdoses e negócios ilícitos. Entretanto, a cidade trabalhava, divertia-se e dormia paredes-meias com este pesadelo.
Só quem se aventurava bairro adentro, dezenas e dezenas de vezes, como o João Soares e eu próprio, sabe o que é sentir a alma doer. Mais: fica-se com a certeza que palavras como solidariedade e cidadania são para fazer e não para dizer.
A partir de 1998 começou-se a desfazer o pesadelo. Deu-se então início à construção de casas dignas para quem vivia no Casal Ventoso, nas proximidades do local para que as pessoas que ali residiam mantivessem os seus laços de familiaridade, de vizinhança e de afectos – a Quinta do Cabrinha, de um e outro lado da Avenida de Ceuta. (Construiu-se no local um centro de apoio aos toxicodependentes, com cama, mesa e roupa lavada, para além de cuidados médicos primários; construiu-se, também ali próximo, na Rua de Cascais, um centro de encaminhamento e recuperação de toxicodependente provenientes do Casal Ventoso; e, também nas proximidades, na Rua Arco de Carvalhão, construiu-se um centro para toxicodependente sem-abrigo, com mais de duzentas camas).
Não são palavras lançadas ao vento sem conhecimento, nem sentido. São realidades que dão sentido à palavra solidariedade!
Hoje, um novo bairro percorre toda a Avenida de Ceuta. Um novo bairro pensado e construído. Com escola. Com centro de saúde. Com comércio. Com associações desportivas, culturais e sociais. Com vida. Um novo bairro onde os moradores do velho Casal Ventoso sentem que lhes foi restituída a dignidade. Onde sentimos alegria nos olhos de cada criança que salta à corda no pátio amplo e arejado. Onde ouvimos um homem, com sessenta anos, com olhar perdido no sonho, dizer: nasci ali – apontando para a encosta onde existiu o velho bairro – e nunca tive uma casa de banho. Agora tenho e esta é a minha maior felicidade.
Quem nunca entrou no antigo Casal Ventoso ou quem é alheio a essa coisa que se chama solidariedade (ou quando esta se restringe a uma árvore de Natal nesta época do ano) pode botar o discurso que quiser, falar mesmo em bairros atravessados por auto-estradas, mas nunca saberá o que é a sensação de felicidade de passar por lá e ver o sorriso de uma criança.
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Bocage.
Levanta Alzira os olhos pudibunda
Levanta Alzira os olhos pudibundaPara ver onde a mão lhe conduzia;Vendo que nela a porra lhe metiaFez-se mais do que o nácar rubicunda:Toco o pentelho seu, toco a rotundaLisa bimba, onde Amor seu trono erguia;Entretanto em desejos ardia,Brando licor o pássaro lhe inunda:C'o dedo a greta sua lhe coçava;Ela, maquinalmente a mão movendo,Docemente o caralho embalava:"mais depressa" – lhe digo então morrendo,Enquanto ela sinais do mesmo dava;Mística pívia assim fomos comendo.
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Citações.
Nuno Pacheco pergunta, hoje, no Público, Que Iraque em 2007? Transcrevo o último parágrafo.
«A verdade é que, no ponto a que se chegou, ninguém tem ainda ideias muito claras sobre o caminho a seguir. Negociar é uma ideia possível, travar a violência extremista é outra. São, aliás, complementares, embora ninguém arrisque garantir o êxito de uma e de outra. Na mais recente edição do Courrier Internacional, o filósofo José Gil resumia em escassas palavras o estado actual deste drama: "O relatório Baker quase encosta todos à parede com uma alternativa absoluta: ou se resolve tudo ou tudo explode. Mais do que nunca, é em situações destas que a diplomacia deve intervir, mesmo sem nenhumas garantias de êxito." Mas se à diplomacia se reservam tais dúvidas, elas não são menores no campo das armas. Bush, agora numa posição de menor inflexibilidade face a outras estratégias, vai desde já avisando que 2007 trará "escolhas difíceis e sacrifícios complementares". Ou seja: mais tropas no terreno. Mais vidas e dinheiro gastos com a guerra. A do Vietname consumiu 549 mil milhões de dólares (a preços actuais); a do Iraque caminha velozmente para os 600 mil milhões. Um preço elevado para uma "vitória" que é já, mesmo para Bush, uma quase derrota.»
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