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O DN de hoje, assim como quem não quer a coisa, na última página, dá a notícia breve de que Ernest Hemingway – um dos meus escritores preferidos – teria afirmado (e escrito numa carta) que, em 1944, integrado como oficial no 22º Regimento da IV Divisão de Infantaria dos EUA, matou a tiro 122 prisioneiros alemães. Depois de Günter Grass ter assumido a sua participação nas SS só me faltava esta. Mas, como é hábito no jornalismo de meia bola e força, a pequena notícia do DN fica-se pelo folclore do “escândalo”: não diz que esta “novidade” está num livro de anedotas sobre escritores da autoria do jornalista alemão, Rainer Schmitz. Anedotas – repito. Outra coisa que o jornalismo despreocupado do meio bola e força não diz é que o próprio autor do livro considera que provavelmente se trata de fanfarronices do escritor e que essa “notícia” já tinha sido publicada, sem qualquer relevância, nos Estados Unidos, em 1992, num artigo da A Life Without Consequences, assinado por James Mellow. Aliás, o jornalista alemão conta ainda que Pablo Picasso não acreditou nessa história quando Hemingway a contou durante um jantar. "Isso é mentira" — disse Picasso na cara do norte-americano. Afinal de contas o jornalismo do meio bola e força transforma uma anedota numa notícia séria. Vejam lá se trabalham um pouco mais que a produtividade em Portugal está muito baixa.
(Terry Rodges -The Inluence of Civilization, 2005, 56" x 72 ", oil on linen)

José Manuel Fernandes trata, hoje, no Público, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça abaixo de cão. Não sei se é um excesso de zelo do editorialista na defesa do pacto da Justiça ou se tem razão. Mas se assim for - se tiver razão - ainda é mais grave. Se a terceira figura do Estado e a primeira do Poder Judicial é assim retratado e maltratado, o que nos resta? Transcrevo a parte final do texto A estratégia da aranha (sublinhados meus):
Em Setembro de 1877 morreu Alexandre Herculano. Todos os anos, em Setembro, passa mais um ano sobre a sua morte. A vulgaridade do acontecimento enforca-nos no esquecimento. Herculano nada diz aos nossos jovens porque a Educação nos nossos dias apela mais ao esquecimento do que à memória. Por isso, relembro aqui um texto de Vitorino Nemésio (Se bem me lembro...) sobre Herculano: «Mais do que um escritor, ele foi o que se chama uma pessoa; quer dizer: aquilo que responde por si diante do universo e que deus não deixa perecer. Uma pessoa conhece-se pela consciência, como um veleiro pelas velas, e a de Herculano era vasta e de muito vento. O seu temperamento, tipicamente português. Oliveira Martins, que sabia disto de homens, chamou-lhe “um D. João de Castro da burguesia do século XIX”, e era. Nós de D. João de Castro sabemos sobretudo a história das barbas empenhadas; mas isso chega. Eram os tempos fantásticos em que, como diz um amigo meu, esta estupenda afirmação de um homem por um pelo era possível.»