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...

por Tomás Vasques, em 10.07.06
Da noite
Ela trabalhava numa casa de alterne.
Ele alternava as noites entre casa e casas de putas.
Ela vestia sempre preto. Ele achava o preto deslocado.
Uma noite sentou-se na mesa dela. Ofereceu-lhe uma bebida e um
sorriso.
Ela aceitou a bebida. Hesitou no sorriso.
Aceitou.

Procurou-lhe os olhos. Ela baixou-os.
Ele gostou.Ele não falou. Ela nada disse.
Olhava-a.
Ele ficou na mesa dela toda a noite. Lendo, interpretando o
silêncio. Os gestos pudicos, o negro da roupa.
O recato numa casa de putas.

No fim da noite ela saiu sem lhe perguntar se a queria.
Simplesmente, levantou-se e saiu.
Ele voltou na noite seguinte e todas as noites.
A noite dele a mesa dela. O dia dele a espera da noite. A espera
dela.

Uma noite ele estendeu-lhe a mão. Saíram.
Na rua falou dele. Falou dela. Falou na casa que era dele onde uma
estranha habitava. Não ela.
Falou no lugar que era o dela. Ela não pertencia ao lugar.
Não era o lugar dela.
Tão diferente o preto que ela vestia da cor do lugar. Tão diferente
o silêncio dela dos sorrisos falsos, das palavras abundantes e ocas.
Tão diferente o recato, o pudor nos olhos baixos, da luxúria, da
oferta do corpo no lugar.

Ela apertou-lhe a mão como se só ele entendesse.
Ele sentiu-se único e responsável.
Ela fez amor com ele como se o amasse.
Ele fez amor com ela amando-a.

Ele deixou de alternar entre casa e casas de putas.
A noite, o bar, a mesa dela, casa única.

Uma noite ele assumiu perdas e derrotas, impotência e exageros.
Disse-lhe: - Vem viver comigo.
Ela apertou-lhe a mão.

Nessa noite não pegou, como todas as outras noites, no dinheiro
que ele pousava ao lado da mala. Como se não existisse compra.
Como se nunca tivesse havido venda.
Fez amor com ele como se o amasse.
Ele fez amor com ela amando-a. Chamando-a sua.

No dia seguinte esperou-a no quarto feio e frio a que chamava
agora lar.
Ela não chegou.
Esperou-a mais um dia e uma noite. No outro lado do telefone o
silêncio.

Procurou-a. A mesma mesa. O mesmo vestido preto. O mesmo
recato.
Outro homem.
Agarrou-a por um braço. Gritou-lhe dor e amor. Declarou-se
perdido, a culpa dela.

Alguém o expulsou da noite, do bar, da mesa, da vida dela.
Alguém lhe disse rindo:
- É a melhor puta da casa.

(O regresso de Encandescente)

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publicado às 11:12



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