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Dissidências.

por Tomás Vasques, em 22.06.07



Depois de escrever este meu post, em conversa com o meu amigo Manuel, antigo militante comunista (recordam-se de «Breves notas sobre a revolução de 1917 e Portugal», Vida Soviética, n° 30, de Novembro do 1977) dizia-lhe: a minha opinião é, por razões opostas, igual à do partido, mas não é por isso que deixo de ter essa opinião. Hoje, o Avante, pela pena de José Manuel Jara, a propósito do mesmo assunto – o livro de Raimundo Narciso Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via – cita Álvaro Cunhal: «Álvaro Cunhal, no período agudo de turbulência interna do PCP de 1987 e 1988, que culmina no XII Congresso de 1 de Dezembro de 1988, caracterizou a situação política interna do partido como sendo expressão da «crise da consciência comunista de alguns militantes», mais do que uma crise do Partido.» Claro que têm razão, tanto Álvaro Cunhal, como Jara. E no que é que essa razão se traduz? É simples: o reconhecimento do totalitarismo (não uma ditadura de classe, como faziam crer, mas a ditadura de esquizofrénicas nomenclaturas partidárias, de Moscovo a Havana), do logro do «socialismo soviético» e da pobreza que sempre gerou e a impossibilidade de qualquer mudança interna, levaram à «crise da consciência comunista». Obviamente! Mas essa «crise», que corresponde a um outro olhar sobre o mundo, significa a conclusão de que os partidos comunistas não representam os defensores da democracia, da liberdade, do bem-estar dos povos. Representam-se a si próprios – uma empedernida nomenclatura partidária. E, por isso, por não representarem ninguém, apenas podem exercer o poder em ditadura - contra todos. Em suma: os «dissidentes» mudaram: compreenderam a natureza totalitária do partido e do seu projecto de sociedade; o partido, esse, não mudou.

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publicado às 00:22

Leituras.

por Tomás Vasques, em 19.06.07

A leitura atenta de Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, por quem tenho grande apreço, não me afastou um milímetro das conclusões que sempre retirei de outras leituras de «dissidências» do partido comunista: foram os protagonistas das «dissidências» que mudaram, não o partido. Mudou o seu olhar sobre os mesmos factos, quer no funcionamento interno, quer na apreciação política nacional e internacional. Podiam ter chegado às mesmas conclusões 10 anos antes, 20 ou 30 anos antes. Não chegaram. Aliás, isso mesmo perpassa em todo o livro. Por exemplo, a propósito da substituição de Krutchev por Breznev, no Verão de 1964, escreve Raimundo Narciso: «Mudança aliás que teve o agrado de Álvaro Cunhal que não apreciava (…) provavelmente o estrondo provocado pelas denúncias do estalinismo.» Se este «agrado» de Cunhal era uma «coisa má», era-o desde a década de 60. Antes de 1974, a ausência de democracia interna «justificava-se» aos olhos de todos os militantes pelas difíceis condições de clandestinidade. Mas, depois de 74, o PC continuou a funcionar rigorosamente como se estivesse na clandestinidade: a velha fórmula leninista do «centralismo democrático» a sustentar o pensamento único e inatacável. E esse funcionamento interno não era (é) uma questão organizativa. É uma questão ideológica. E é desde sempre. Não surge na década de 90. Insisto: não há «acontecimentos» novos no modo de funcionamento ou de análise do PC que expliquem as «dissidências», sobretudo de militantes de muitas décadas, como fundamento para o processo de divórcio com o partido. A explicação encontra-se sempre na mudança do «dissidente» e não do partido. E raramente leio, em obras deste tipo, uma explicação assente nas motivações que levaram o «dissidente» a integrar o partido comunista, a aceitar as regras de organização e a matriz político-ideológica durante décadas e, depois, explicar o seu novo olhar sobre o mundo, a sua mudança como a base sobre a qual assenta a ruptura. Contam-nos sempre a história de que o partido se transformou numa «coisa má», quando na verdade nunca houve qualquer transformação.

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publicado às 14:49



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