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||| O socialismo traído.

por Tomás Vasques, em 26.09.08

 

 

 

 

 

O Socialismo Traído, (Edições Avante, Setembro de 2008), da autoria de Roger Keeran e Thomas Kenny, um historiador, outro economista, constitui uma reflexão «interna» (ambos são militantes do partido comunista dos EUA) sobre a derrocada do «socialismo» soviético. Em traço grosso, a «investigação» reafirma os «lugares comuns» entre comunistas ortodoxos: não havia qualquer crise grave na sociedade soviética que justificasse o colapso do regime. Havia necessidade – dizem os autores -de alguns aperfeiçoamentos, mas «tudo» funcionava rumo à «sociedade comunista»: a democracia de tipo novo, a economia planificada, os sindicatos, os sovietes e tudo o mais. E, encurtando razões, apontam dois motivos principais que levaram ao fim a pátria do socialismo: por um lado, a luta entre as duas linhas, a de esquerda e a de direita, no interior do PCUS (Bukhárine e Stáline, Khruchov e Mólotov, Bréjnev e Andrópov, Gorbatchov e Ligatchov); por outro, a «segunda economia» – uma «economia de mercado», residual, mas que representava o modo de pensar capitalista. A «direita» dentro do Partido apoiou-se, sempre, nos representantes «do modo de pensar capitalista». Mas, fica claro nesta obra que a «degenerescência» começa após a morte de Estaline. Entre os anos 30 e 50 o crescimento industrial situava acima dos 15%; com Khruchov baixou para os 3 ou 4 %. Aliás, a reflexão aponta o dedo inequívoco a Khruchov como o «pai» da «desconstrução» do socialismo. Cito:

 

 

«Depois de 1953, começou a crescer dentro do socialismo uma nova base económica para as ideias burguesas.»


«Tais elementos que tinham (…) diminuído drasticamente com a colectivização da propriedade sob Iossif Stáline voltaram a aparecer com a chamada liberalização de Nikita Khruchov.»


«A abordagem de Khruchov (…) ia contra o aviso dado por Stáline em 1952 de que “deixar de dar primazia à produção de meios de produção» iria “destruir a possibilidade da expansão contínua da nossa economia”».

 

Khruchov avançou (…) a ideia de que o PCUS deixara de ser apenas a vanguarda do proletariado para se tornar a vanguarda de “todo o povo” e de que a ditadura do proletariado se tornara o “Estado de todo o povo”.


Khruchov fez diversas mudanças no modo de funcionamento do Partido que diluíram o seu papel dirigente.»


Toda a ideia de que a luta de classes terminou num mundo ainda dominado pelo capitalismo e pelo imperialismo, ou no interior de um Estado socialista, é ela própria uma manifestação da luta de classes a um nível ideológico.


«A actividade económica privada (…) emergiu com uma nova vitalidade no tempo de Khruchov, floresceu com Bréjnev e em muito aspectos substituiu a economia socialista primária no tempo de Gorbatchov e de Ieltsin.»

 

Ver isto escrito num livro editado pelos comunistas portugueses, em 2008, é estranho. É a repetição das teses dos comunistas chineses, na luta ideológica que mantiveram com os comunistas soviéticos, há 50 anos. Mao Tsétung, na altura, chamou-lhes revisionistas. Os autores de O Socialismo Traído, também. Com as mesmas palavras e os mesmos argumentos. É à luz da reflexão contida neste livro que devem ser revisitadas as posições de Álvaro Cunhal nos anos 60. O líder dos comunistas portugueses, em defesa de Khruchov, disse e escreveu exactamente o contrário, com a agravante de conhecer as posições dos comunistas chineses.

Afinal, parece que, no plano ideológico, Álvaro Cunhal não acertou uma.

Voltarei ao tema, comparando citações dos comunistas chineses, de Álvaro Cunhal e da obra editada pelo Avante.

 

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publicado às 23:39

||| As armadilhas da história.

por Tomás Vasques, em 23.08.08

A história política do século XX conheceu momentos grandiloquentes e únicos, onde se travaram combates ideológicos e políticos no terreno, minuto a minuto, como nos dias da revolução francesa. Destaco, entre todos, a revolução de 1917 na Rússia (sem esquecer o ensaio geral em 1905); 1968 na Checoslováquia; e 1974, em Portugal. Cada um desses momentos teve, naturalmente, as suas circunstâncias e os seus protagonistas. Em 1917, na Rússia, os protagonistas foram Kerensky, pelos mencheviques, e Lenine, pelos bolcheviques. Entre Fevereiro e Outubro desse ano, cada minuto contou para o desfecho final. Lenine e os bolcheviques, em Outubro, tomaram o poder e, com essa vitória, iniciaram a «construção do socialismo». A Duma foi substituída pelos Sovietes, e a «democracia burguesa» pela «ditadura do proletariado». Hoje sabemos como essa primeira experiência evoluiu e como acabou, mas aquela meia dúzia de meses, em 1917, marcaram o século XX. Quase 60 anos depois, em Portugal, os bolcheviques, chefiados por Álvaro Cunhal, e os mencheviques, com Mário Soares à cabeça, defrontaram-se quase nos mesmos termos. Desta vez, durante mais de um ano, entre Abril de 1974 e Novembro de 1975 repetiu-se o combate ideológico e político no terreno, minuto a minuto. O cerne da disputa estava no mesmo lugar: «Democracia burguesa» ou «ditadura do proletariado». Álvaro Cunhal não teve a ousadia, nem a facúndia de Lenine nos momentos decisivos. Amedrontou-se e foi derrotado (a entrevista de Cunhal a Oriana Fallaci, vista à distância, é um dos flagrantes testemunhos da falta de visão do líder comunista). Nem Mário Soares se dispôs a fazer o papel de Kerensky. Hoje sabemos como a primeira experiência de «construção do socialismo» debaixo da «ditadura do proletariado» evoluiu e como acabou. Mas, não sabemos, nem nunca saberemos, como toda esta história se desenvolveria na URSS, apesar da Primavera de Praga, caso os bolcheviques, chefiado por Cunhal, tivessem ganho o combate e, Portugal, seguisse a experiência da «construção do socialismo» debaixo da «ditadura do proletariado», entalando a Europa numa tenaz.

 

PS: Esta lenga-lenga (escrita há 8 anos como nota de leitura a um livro sobre a revolção russa) assemelha-se a conversa de arqueólogo, mas não é por acaso que, ainda hoje, mal descobrimos umas pedras romanas as preservamos como património histórico. O património ideológico e político também deve ser preservado para que o futuro não nos reserve surpresas.

 

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publicado às 15:56

 

Béria e Krutchev transportam a urna de Estaline.

 

 

Vítor Dias – tal como os demais comunistas portugueses – tem a ingrata tarefa de transportar, aos ombros, a história oficial do PCP. Isso obriga-o a não ceder um milímetro aos luxos burgueses, como a liberdade de pensamento, por exemplo. Vítor Dias pensa que Álvaro Cunhal, enquanto líder do PCP, nunca cometeu erros (ai o culto da personalidade!), do mesmo modo que endeusou Estaline até 1953 e depois, como se nada fosse com ele, alinhou na denúncia dos crimes do ditador soviético feita por Krutchev, em 1956. E nem pestanejou quando Krutchev, na luta pelo poder, executou Béria da mesma forma que Estaline tinha executado tantos dos seus camaradas. Nem estranhou que quem denunciava os crimes de Estaline tinha escrito, anos antes: «Os trotskistas levantam as suas mãos traidoras contra o camarada Estaline, Estaline a nossa esperança; Estaline o nosso desejo, Estaline: a luz da humanidade avançada e progressista. Estaline a nossa vontade, Estaline: a nossa vitória». Vítor Dias não acredita nas ideias, nos factos, na multiplicidade, na discussão. Acredita apenas, piamente, na «linha justa» do Partido. Vítor Dias vê o mundo através de umas lentes que lhe distorcem o que vê: por exemplo, democracia na Coreia do Norte e fascismo («grau zero da democracia») em Portugal. Por isso, não entendeu a ironia do meu post. Apenas reagiu ao «ataque» ao camarada Cunhal. Vítor Dias é politicamente cego. É como os meus camaradas de partido que não pensam. Conheço alguns que, nos congressos do PS, apoiaram incondicionalmente Mário Soares, Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres, Ferro Rodrigues e José Sócrates, sem nunca perceberem as diferenças entre eles; por oportunismo ou por cegueira partidária. Vitor Dias não percebe que o PC da URSS nunca deixou de ser estalinista e que o bem estar dos povos não se alcança com ditaduras, mesmo que sejam do «proletariado».  

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publicado às 18:58



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