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A DEMOCRACIA É MAIS FRÁGIL DO QUE PENSAM

por Tomás Vasques, em 01.10.12

 

 

Portugal, a Grécia e a Espanha estão no mesmo barco. Há um fio condutor que une estes três povos: deram, num passado mais ou menos longínquo na História, contributos decisivos que marcaram o mundo até hoje; livraram-se de ditaduras que os oprimiam na mesma altura, entre 1974 e 1976; e aderiram à União Europeia, para consolidar os novos regimes democráticos e alcançar um maior bem-estar, na mesma década. Hoje, navegam à deriva em mar encapelado, à procura de um porto de abrigo que a vista não alcança. Sem bússola, começam a navegar em círculo, aguardando o naufrágio como uma fatalidade. Com maior ou menor reverência, cada um dos governos – por sinal da mesma família política ou aparentados – aceita como inevitável os programas de empobrecimento, sem dó nem piedade, dos seus povos, ditados por Bruxelas e Berlim. Mas, como está demonstrado, primeiro na Grécia, agora em Portugal e, como se verá em breve em Espanha, os pesados cortes dos salários e o brutal aumento de impostos, agravam substancialmente as dificuldades que se propunham resolver: criam profundas recessões, destroem o tecido económico e aumentam o défice orçamental e a dívida externa, destruindo todos os equilíbrios sociais e lançando milhões de pessoas no desemprego e na miséria. Se no caso da Grécia ainda poderiam existir dúvidas sobre as consequências dos programas impostos, dada a má fama no seu cumprimento à risca, no caso português, onde um governo de “bons alunos” foi além do que lhe era exigido, essas dúvidas foram dissipadas. A saída que os nossos credores nos propõem, não é uma saída, é uma entrada no inferno.

Contudo, o pior está para vir. Os resultados desastrosos das medidas aplicadas, aconselhavam, neste momento, um confronto duro entre o nosso governo e os nossos credores: a abertura de uma renegociação séria, com voz grossa, da dívida externa, quer quanto a prazos, quer quanto a juros, bem como a fixação de novos prazos e novas metas para o equilíbrio orçamental, senão mesmo a extinção de parte da dívida. Só isso poderia permitir uma maior “folga” para incentivos ao crescimento económico que, acompanhados de uma distribuição mais equitativa dos sacrifícios por todos, poderia, a curto prazo, reanimar o tecido económico, conter a recessão, diminuir o desemprego e manter a coesão social. Mas não vai ser este o caminho que os governos de Portugal, da Grécia e de Espanha vão percorrer. Pelo contrário. Presos ao Euro, à teia dos tratados europeus e à Direita dominante na União Europeia, estes governos querem, submissos, “respeitar” os ditames dos especuladores financeiros até ao último suspiro. No caso português, o governo prepara-se para repetir, em 2013, a dose de austeridade, aplicada sempre aos mesmos, que tão maus resultados já produziu. Esse é o pior caminho, é o caminho do abismo.

Não é por acaso que, numa Europa aparentemente calma, até ver, em Portugal, na Grécia e em Espanha se assiste cada vez mais a greves gerais, a gigantescas manifestações populares de repúdio pelas políticas dos seus governos e, em última análise, ao desencanto quanto aos partidos políticos e à própria democracia. E sabemos que qualquer regime pode cair de um dia para o outro. Às vezes basta um sopro para se desfazerem completamente, sem qualquer apoio civil ou militar. Foi assim no dia 25 de Abril de 1974, quando militares descontentes, em meia dúzia de horas, com o apoio da população, derrubaram uma ditadura “estruturada” com quase 50 anos. Foi, assim, também, a 28 de Maio de 1926, quando o general Gomes da Costa fez desaparecer a I República, marchando em triunfo de Braga a Lisboa, onde foi recebido por uma multidão de apoiantes na Avenida da Liberdade. E foi assim, mais detalhe, menos detalhe, que a 4 de Outubro de 1910, umas centenas de revoltosos, entre militares e civis, do Partido Republicano, derrubaram uma monarquia com quase 800 anos de existência.

Este governo, ao seguir o caminho de mais austeridade, não está só a empobrecer a maioria dos portugueses e a lançá-los na miséria. Este caminho pode pôr em causa a nossa frágil democracia.

(no i)

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