A maior fatia das consequências das medidas de austeridade decretadas pelo governo ainda está a caminho. Milhares de pequenas empresas vão falir, o desemprego vai subir até números impensáveis, vai aumentar a entrega diária de casas aos bancos, a pobreza vai deixar de se envergonhar, as receitas do Estado vão minguar até ao ponto em que as metas do equilíbrio orçamental vão passar a ser uma miragem e as dívidas não se podem pagar. Daqui a poucos meses, o que vão fazer? Mais medidas de austeridade? Debaixo da aparente calma do dia a dia germina um vulcão em ebulição. Nunca Lisboa esteve tão próxima de Atenas. Quanto mais tarde o PS se desvincular desta loucura recessiva, maior será a factura a pagar no futuro.
Alexis Tsipras, líder da Coligação da Esquerda Radical, segundo partido mais votado nas eleições de Domingo, na Grécia, incumbido de formar governo, disse, no essencial:
1) “O veredicto popular anula claramente o acordo de ajuda com a troika”.
2) “Os bancos devem ficar sob controlo do Estado”
3) “Apelou à criação de uma comissão internacional para investigar se a dívida grega é ou não legal.”
Inequivocamente, os gregos estão-se borrifando se a miséria é paga em euros ou em dracmas. A manter-se esta situação, depois dos gregos, outros povos seguirão o mesmo caminho. Quem nada tem a perder, tanto se lhe dá. São as consequências das políticas de austeridade para quem vive no limiar da dignidade. A saída da Grécia do Euro e da União Europeia terá mais consequências do que os liberais «bem pensantes» esperam. A senhora Merkel e os seus partidários andam há muito tempo a brincar com o fogo.
Boaventura Sousa Santos, numa frase feliz, o que não é hábito, disse: “Vítor Gaspar tem passaporte português mas é alemão”. Dois dias depois, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, afirmou que Vítor Gaspar seria uma excelente escolha para assumir o cargo de Presidente do Eurogrupo.
Hollande não pode ceder um milímetro no que disse, em campanha eleitoral, sobre o Tratado Orçamental, pelo menos nos próximos tempos. Tem eleições legislativas em Junho e os eleitores não gostam de ser enganados. Merkel não vai querer «perder a face», e também tem eleições para o ano. Estou curioso em ver os desenvolvimentos na aprovação do Tratado Orçamental que, até ao momento, só gregos e portugueses aprovaram. Os irlandeses vão dizer o que pensam, em referendo, a 31 de Maio. Se os irlandeses disserem não ao Tratado (e a vitória de Hollande pode ser um estimulo) o que acontece antes das legislativas francesas, a senhora Merkel fica com uma batata quente nas mãos. Acresce que, em Espanha, Rajoy, independentemente da família política a que pertence, interessa-lhe mais a posição do eleito presidente francês do que as posições da senhora Merkel, tendo sido o único dirigente europeu a invocar o «poder soberano» do estado espanhol para incumprir as metas orçamentais acordadas. Ontem, as eleições em França e na Grécia podem ter despolatado uma granada. Vamos ver se e quando rebenta.
A senhora Merkel diz que o «melhor para a Grécia» é respeitar o plano de ajuda europeu, como se os gregos não tivessem direito a ter opinião; a senhora Merkel diz que «rejeita qualquer alteração na política orçamental da zona euro», como se os franceses fossem verbos de encher. A senhora Merkel diz e faz o que quer, como se a União Europeia fosse uma coutada de Berlim. Esta não é a Europa dos europeus – é a Europa alemã. A Europa que a Direita aplaude.
Hoje, Domingo, quando escrevo este texto, os franceses escolhem o presidente
da França, entre Sarkozy, que tem submetido a França à agenda ideológica,
financeira e económica da Direita alemã e Hollande, um socialista que tem a
obrigação política de, no mínimo, impedir que a senhora Merkel «decida tudo
sozinha», como ontem disse Romano Prodi, o ex-primeiro-ministro italiano.
Também os gregos decidem se querem viver na miséria paga em euros ou em
dracmas, sendo que a sua escolha não é indiferente ao futuro do Euro. Apesar
da importância do resultado de cada uma destas duas eleições para o futuro
do Euro e da Europa, no dia em que, provavelmente, Hollande é já presidente
eleito da França e os gregos preferiram pagar a miséria em Euros, prolongo
ainda o tema que dominou as atenções e as opiniões da semana passada –
a promoção de uma cadeia de supermercados que fez uma das melhores
campanhas de marketing dos últimos anos em Portugal.
Sem hipocrisias, nem ironias, tudo foi pensado ao pormenor: o desconto de
50%, por ser um número certo e simbólico: dividir irmãmente em partes iguais;
o dia escolhido – o 1º de Maio, dia do Trabalhador – foi magistral, de se lhe
tirar o chapéu; e o anúncio em cima da hora foi a cereja em cima do bolo. Muita
gente se indignou com esta operação de marketing bem-sucedida como se
estivesse à espera que o empresário Soares dos Santos tivesse a obrigação de
convocar os seus trabalhadores para as manifestações do 1º de Maio convocadas
pela CGTP. Não só não tem essa obrigação, como tem um objectivo elementar a
cumprir: criar lucros com a sua actividade empresarial. Outros, indignaram-se
com o comportamento do «zé povinho» que aderiu em massa à promoção,
como se estivessem à espera que quem fica em casa sem nada para fazer, num
feriado cujo significado nada lhe diz, se recusasse a comprar o que precisa (e o
que não precisa) a metade do preço. Não faz sentido a tese do «empresário
provocador», como não faz sentido a tese da «classe média ávida de consumo».
Ambas as partes, vendedores e consumidores, agiram de acordo com os seus
objectivos e necessidades imediatas, o que é normal. O mais que se acrescentar
é conversa fiada. No entanto, este caso, como tantos outros semelhantes, é a
prova da falência da Educação, a qual tem conduzido à «descapitalização»
cultural de várias gerações, que não conhecem Camões, Eça ou Amadeo de
Souza Cardoso, por exemplo, com a cumplicidade dos sindicatos dos
professores. É tão fácil encher supermercados de consumidores, como fácil é
encher a Avenida da Liberdade de professores que aderem em massa à defesa
dos seus interesses individuais e imediatos. No fundo, o «fenómeno» é o
mesmo, e a CGTP, na maior parte dos casos, não está longe do senhor Soares
dos Santos. Na sociedade, tal como na natureza, os opostos se atraem.
(Ler mais AQUI)
O rotativismo partidário grego, entre a Nova Democracia e o PASOK implodiu ontem. A Coligação da Esquerda Radical foi o segundo partido mais votado, ultrapassando os socialistas, enquanto a ND – o partido mais votado – não atingiu os 20% dos votos. Os «partidos do costume» que, no seu conjunto, passaram décadas e recolher entre 70 e 80% dos votos, não atingiram os 35%, não tendo uma maioria no Parlamento que permita sustentar um «governo de salvação nacional». Hoje serão conhecidos os resultados das eleições municipais em Itália. Aguardemos pelas surpresas.
Ontem, a senhora Merkel viu a sua estratégia de empobrecimento dos trabalhadores europeus derrotada em França, na Grécia e no estado alemão de Schleswig-Holstein, onde a vitória por 4 décimas sobre o SPD não é suficiente para a CDU formar governo. Com a vitória de Hollande perdeu o principal aliado da sua estratégia, enquanto os gregos votaram com «fúria» contra a violenta austeridade, a intervenção externa e o governo imposto pela troika, independentemente das consequências em relação à permanência no Euro. São sinais de aviso importantes.
PRESIDENCIAIS FRANCESAS | As últimas sondagens, a 4 dias da
primeira volta, colocam à frente François Hollande,
com 29% de intenções de voto, seguido por Sarkozy, 24%, Marine Le Pen, 17% e Jean-Luc
Mélenchon com 15%. Para a segunda volta, quinze
dias depois, a mesma sondagem prevê uma vitória clara do socialista, com 58%
contra 42% de Sarkozy.
A nacionalização pelo governo argentino da Repsol Argentina é um acto isolado ou é o pontapé de saída para uma inversão da «nova ordem económica mundial»?
Os jornais publicaram um relatório do FMI, e sintetizam: «Estudos do FMI mostram que, no actual contexto, o ajustamento orçamental pode ter um impacto negativo nas economias. Instituição pede política de redução do défice menos agressiva.» Até o FMI - um dos nossos credores - não acredita na conversa dos bons alunos do «colégio alemão». Os países na miséria não pagam dividas, diz o FMI, e : «não devem reduzir o défice a todo o custo, sob pena de enfraquecer ainda mais a actividade económica e, inclusive, exacerbar os receios dos mercados face às perspectivas de crescimento.» Ao contrário do que os catequistas da luterana Merkel pastoreiam por cá.
Os dados do final de Março compilados pelo Centro
Nacional de Pensões e pelo Ministério da Segurança Social, segundo notícia do
i, indicam que 1 milhão e
400 mil (o que corresponde a 85%) pensionistas da Segurança Social, no final de
2011, recebiam menos de 500 euros por mês. No final de 2010, estes pensionistas
correspondiam a 79%. Se a este quadro adicionarmos os significativos aumentos
da electricidade e do gaz, todos as alterações na Saúde e a subida do IVA, para
não ir mais longe, temos a noção da miséria em que vive este milhão e meio de
portugueses. Foi você que disse que os portugueses viviam acima das suas
possibilidades?
Um dos fundamentos avançados
pelo ministro da Saúde para o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa foi
a diminuição do número de partos, nos últimos anos, naquela unidade hospitalar.
Enganou-se nos números. O número de
partos tem aumentado. Não dei conta de que o ministro tivesse explicado publicamente
o erro e tirado daí consequências. Foi você que pediu um governo transparente?
Na última semana de Março soaram as campainhas de alarme aos ouvidos do
governo. As consequências da recessão a que as medidas de austeridade nos
conduzem são incontroláveis. Tornou-se, então, evidente para quem nos
governa o que já era evidente há muito tempo: as medidas tomadas até aí
estavam a provocar resultados opostos aos desejados. E ficou claro que Portugal
não vai «regressar aos mercados» no dia 23 de Setembro de 2013, como o
ministro das Finanças, Vítor Gaspar, repetidamente afirmara. Vai ter de pedir
novo resgate, aliás, já implicitamente previsto pelos burocratas da troika.
Acresce que todas as medidas tomadas e as outras que aí vêm são parte de uma
agenda ideológica dos partidos no governo – um ajuste de contas há muitos
anos adiado e que, agora, sob a custódia dos credores, está a ser executado. Por
isso, desde da Semana Santa, o governo iniciou, sem aviso prévio, nem
explicações adicionais, um novo ciclo de medidas de austeridade, as quais estão
para além do que consta no memorando acordado com a troika para o primeiro
resgate. As novas medidas, anunciadas avulsas, quase uma por dia, parecem
resultar de um «concurso de ideias» lançado a todos os ministros. O pontapé de
saída foi dado pelo próprio primeiro-ministro ao declarar, ao contrário do que
sempre tinha dito, que os subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e
pensionistas só seriam repostos lá para 2015 e aos bochechos. Posteriormente,
rectificou o tiro, e acrescentou: «Serão repostos assim que possível», o que
dilata a suspensão para o fim do prazo do segundo resgate. Depois, pela mão da
ministra Assunção Cristas apareceu, caído do céu, um novo imposto sobre
a «segurança alimentar» - a recair certamente sobre o consumidor final,
enquanto em surdina, pela calada da noite, se suspendiam as pensões de
reforma antecipadas. O ministro Pedro Mota Soares para além de restringir
substancialmente o Rendimento Social de Inserção, congemina a entrega ao
sector privado de parte da Segurança Social. As vítimas são sempre as mesmas.
(Ler mais aqui).
António José Seguro disse, hoje, no Parlamento, que «estes tratados não respondem verdadeiramente à crise, podem responder aos mercados, mas não respondem aos problemas das pessoas». Ora, se isto é verdade, se o secretário-geral do PS tem razão, mal se entende o voto favorável dos socialistas aos tratados europeus em causa, nomeadamente aceitar a transposição da «regra de ouro».
A propósito da confusão gerada na entrada da A22, em Vila Real de Santo António, na semana santa, as Estradas de Portugal explicam que «a forma mais cómoda de realizar o pagamento das portagens é fazê-lo online, logo no país de origem e ainda antes de chegar a Portugal. Essa é a forma que assegura que não haja nem incómodos nem demoras». Sugerir aos visitantes estrangeiros que paguem portagens de auto-estrada, online, antes de entrarem em Portugal, como quem reserva um quarto de hotel, demonstra bem como os nossos gestores públicos vivem para dentro, para eles, e não para os consumidores e para os resultados das empresas que gerem.
O Presidente da República disse hoje que nunca mais irá falar sobre a pensão que recebe do Banco de Portugal. Disse ao jornalista que o questionou: «Nunca mais voltarei a pronunciar-me por uma simples razão: aquilo que os senhores têm escrito sobre o assunto não corresponde minimamente à verdade e já desisti de fornecer qualquer outro esclarecimento». Trata-se de uma frase ensaiada para fugir ao esclarecimento. Ora, se «não corresponde minimamente à verdade» o que foi noticiado, sobretudo o valor do conjunto das pensões de reforma, do BdP e da CGA, mais se exige que o senhor presidente esclareça de uma vez por todas: 1) Qual a valor das pensões de reforma que recebe? 2) Qual a razão que o fez optar pelas pensões de reforma em vez da remuneração devida ao cargo que ocupa e para o qual foi eleito? 3) Vai receber ou não os subsídios de férias e natal que foram retirados aos demais funcionários públicos e pensionistas? A transparência no exercício dos cargos públicos exige que não hajam vacas encoiradas.
Como vão longe os tempos em que o CDS-PP, em tom emproado, questionava no Parlamento o ministro socialista Correia de Campos, a propósito do encerramento de blocos de partos nos hospitais de Oliveira de Azeméis, Elvas, Santo Tirso, Barcelos ou de Lamego. E, no calor do debate, desafiou o governo «a não fazer política no sector da Saúde a pensar no défice». Agora, no governo, sem pinga de vergonha, prepara-se para fechar a Maternidade Alfredo da Costa.
Nos últimos dias, o governo, cuja agenda ideológica o coloca na trajectória do desastre, parece ter, finalmente, admitido a desgraça que se adivinha no fim do túnel por onde insiste em nos conduzir. E desorientou-se, completamente. Mas, sobretudo, destruiu os frágeis pilares em que assentava o seu discurso político, com a mesma ligeireza e irresponsabilidade com que, antes, os mesmos protagonistas, chegados ao governo, destruíram o discurso com que alimentaram a campanha eleitoral. A narrativa do primeiro-ministro, segundo a qual “regressaremos aos mercados em Setembro de 2013” ou que “não precisamos de mais dinheiro, nem de mais tempo” esboroou-se durante a semana passada. Os indicadores económicos dos primeiros meses deste ano são catastróficos, com a despesa a aumentar em relação a igual período do ano anterior, a receita a diminuir, o desemprego imparável e a economia a definhar. Acresce que o deficit orçamental alcançado o ano passado foi artificial, à custa dos fundos de pensões da Banca. Perante o insucesso do rumo do governo, Pedro Passos Coelho admitiu o óbvio: Portugal necessita de um segundo resgate. Disse-o de forma mitigada e a um jornal alemão. No entanto, entre nós, ainda não admitiu o colapso, nem pediu desculpa aos portugueses. Em vez disso, o governo preferiu meter os pés pelas mãos, dizer e desdizer, como quem administra o engano em pequenas doses. As trocas e baldrocas do ministro das Finanças à volta do período de suspensão dos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e pensionistas são parte dessa dosagem, dessa atracção para esconder o que está à vista. Ninguém tem dúvidas que foi dito e escrito que a suspensão dos subsídios vigorava em 2012 e 2013 - o período de vigência do programa de ajustamento. Agora, veio o primeiro- -ministro anunciar que a suspensão se vai prolongar por 2014 e só em 2015 serão repostos os subsídios, mas apenas gradualmente. O que quer dizer, descodificando a linguagem governativa, que provavelmente nunca mais serão repostos. Vítor Gaspar ainda tentou, no seu tom meloso, iludir a alteração, que já faz parte do reconhecimento da necessidade de um segundo resgate. Mas sem sucesso.
(ler mais AQUI)
Depois do sismo que abalou o PS
o ano passado – derrota eleitoral e mudança de liderança – era de esperar que
surgissem as habituais réplicas. Sejamos claros: alguns dos deputados socialistas
que hoje colocam em causa as alterações à legislação laborar, que amanhã vão
ser votadas no Parlamento, votariam a favor, de olhos fechados, caso tivessem
sido propostas pelo anterior governo. Por isso, não é uma questão de princípio.
É uma questão de oportunidade. Também alguns deputados que se opõem a mudanças
estatutárias no PS, propostas pela actual direcção do partido, apenas se
mostram preocupados com a possibilidade de ser António José Seguro a ter uma
palavra decisiva na escolha dos candidatos a deputados nas próximas
legislativas. Por isso, também não é uma questão de princípio. É uma questão de
oportunidade. Provavelmente, outras réplicas virão durante mais algum tempo. A frequência
e a intensidade de novas réplicas dependem da capacidade de reacção de António
José Seguro.
A greve geral de ontem,
convocada pela CGTP, que mobiliza serviços e empresas públicas,
sobretudo da área dos transportes, ficou aquém das expectativas perante a
situação em que os portugueses vivem. Isto foi evidente nalgumas declarações de
dirigentes da central sindical. A polícia, descontrolada, no Chiado, salvou a
greve e provocou uma séria derrota do governo, tanto a nível nacional, como
internacional.
Amanhã há Greve. Não é greve geral, nem nada que se pareça. É uma greve convocada pela CGTP e vai mobilizar
parte dos trabalhadores do Estado e de empresas públicas, sobretudo na área
dos transportes. A greve nos transportes públicos paralisará, necessariamente,
partes de outros sectores de actividade, provocando uma maior dimensão. Apesar
disso, a greve de amanhã é a resposta possível ao massacre social a que assistimos,
com uma política de austeridade violenta para os mais frágeis e o compadrio e a
reverência com os mais fortes, sejam empresas privadas, como a EDP, sejam os
particulares do jet set laranja que
auferem remunerações pornográficas, enleando as suas actividades profissionais
entre o Público e o Privado, como Catroga ou Borges. Participei na minha
primeira greve há mais de 40 anos – a 10 e 11 de Novembro de 1969 -, que terminou,
às 4 horas da madrugada do segundo dia, com uma companhia da GNR armada até aos
dentes, com viseiras e espingardas Mauser engatilhadas, chaimites e
cães-polícia, a expulsar os grevistas do seu local de trabalho. Nessa altura a
greve era proibida pela ditadura e os riscos e consequências da participação
numa greve eram enormes: desemprego, prisão e o mais que eles quisessem. Hoje,
participar numa greve contra o actual estado de empobrecimento da maior parte
dos portugueses não é só um direito, é sobretudo um dever.
A dureza dos números não perdoa: de acordo com a Direção-Geral do Orçamento, «o valor provisório do défice do Estado até Fevereiro de 2012 situou-se em 799 milhões de euros, que compara com um défice de 274 milhões de euros em igual período do ano anterior". O que significa um AUMENTO DE 191%.
A RECEITA EFECTIVA registou um decréscimo de 4,3% determinado pela receita fiscal,
A DESPESA EFECTIVA cresceu 3,5%,
O DESASTRE ANUNCIADO está à vista.
Os socialistas portugueses estão numa encruzilhada. Como também o estão, cada um com as suas especificidades locais e históricas, os socialistas espanhóis, gregos e os trabalhistas ingleses, e, de um modo geral, a Internacional Socialista, cujo presidente é George Papandreou, o deposto primeiro-ministro grego, o que por si já diz muito. Esta encruzilhada, no caso português, não deriva tanto do facto do PS, enquanto governo, ser um dos subscritores do acordo com a troika e, por isso, enquanto oposição, estar “amarrado” às severas medidas de austeridade e de empobrecimento da maioria da população portuguesa. Tem mais a ver com a ausência de soluções novas para a situação que Portugal e a Europa enfrentam, desde que a senhora Merkel se assenhoreou da União Europeia e o capital financeiro começou a marcar o ritmo da política e da acção dos diversos governos europeus. Hoje, não chega ao líder da oposição, como no passado aconteceu, esperar apenas pelo desgaste do governo, para o substituir, nas próximas eleições, usando a fórmula de Durão Barroso: “Sei que vou ser primeiro-ministro, só não sei quando” ou a outra fórmula mais genérica: “estar no sítio certo, no momento certo”. Deixar passar o tempo, alimentando o dia-a-dia com críticas avulsas, desconcertadas e tímidas, à espera que o poder lhe caia nas mãos, como fruto maduro a cair da árvore, foi chão que deu uvas. E não me parece demagógico interpretar os resultados da última sondagem, em que o maior partido da oposição, o PS, perde umas décimas em relação à anterior, num contexto de autêntico massacre social, como um sinal seguro de que lhe é exigido mais do que a rotineira e politiqueira “oposição”.
Ler também o que diz sobre o assunto Medeiros Ferreira.
Agora, com os resultados à vista, já «toda a gente» começa a encontrar erros no primeiro plano de resgate da Grécia. Jean-Claude Juncke disse a um jornal: «Penso que não nos focámos suficientemente sobre a dimensão do crescimento. Insistimos muito sobre a consolidação orçamental, sem ser deixada outra alternativa ao Governo então liderado por Georgios Papanderou». Também Poul Thomsen, líder da missão do FMI em Atenas, aponta as falhas às imposições da troika, e disse: «O programa era muito baseado sobre o aumento dos impostos, quando deveríamos ter colocado mais ênfase sobre a redução da despesa pública» – o que revela preocupação com a profunda recessão provocada pelas receitas da troika e as suas consequências. Muito provavelmente, daqui a uns meses, estão a dizer o mesmo sobre Portugal. O «custe o que custar» dos bons alunos vai conduzir Portugal no caminho da Grécia.
António Borges - todos sabem - é ministro deste governo. O ministro das Privatizações.
Ministro informal, mas ministro. Ganha 5 vezes mais do que um ministro
empossado. E pode exercer o cargo acumulando com a Administração de empresas,
sem que haja incompatibilidades. Hoje foi indicado para Administrador do Pingo Doce.
Foi você que pediu transparência?
Otelo Saraiva de Carvalho está hoje, outra vez, nas bocas da comunicação. O coronel acha que as Forças Armadas devem «actuar» face à «perda de soberania nacional» e derrubar um governo que resulta de eleições, evocando uma nebulosa representatividade popular das Forças Armadas. Sabemos, há muitos anos, que Otelo tem esta estranha forma de pensar a democracia, mas a ascensão de soluções antidemocráticas, à esquerda ou à direita, resulta directamente da crise em que a Europa mergulha e das soluções para a superar. Foi assim numa Europa flagelada pela crise de 1929. Pode ser assim, também, nesta Europa sem rumo. Até porque a actual crise do sistema ainda está no início da derrocada. O empobrecimento das populações, o desemprego e a miséria só agora se começam a sentir. E cada vez mais as soluções antidemocráticas em toda a Europa, sobretudo nos países do sul, terão mais espaço de manobra e acolhimento junto de quem não tem nada a perder. A austeridade cega, «custe o que custar», que recai sobre os mais frágeis, é a mãe de todos os devaneios anti-democráticos.
Medeiros Ferreira, acutilante, mas infelizmente, certeiro: Carnaval no alto da ponte.
Na Grécia, uma sondagem publicada, Domingo passado, no jornal Ekathimireni, com resultados muito próximos de uma sondagem anterior, mantém a tendência para a implosão do bipartidarismo grego – entre a Nova Democracia, à direita, e o PASOK, à esquerda. De acordo com os resultados desta última sondagem, o PASOK (que ganhou as últimas legislativas com maioria absoluta – 44%) cai para 11% – um trambolhão de todo o tamanho. A Nova Democracia, que governou durante 5 anos, até 2009 (34% nas últimas legislativas), apesar de ser o partido mais votado, cai para 28%. A Esquerda Democrática, um novo partido à esquerda do PASOK, obtém 16%, enquanto a esquerda radical reunida no SYRIZA (4,5% nas últimas eleições) sobe para 12% e o Partido Comunista (7,5% nas últimas eleições) sobe para 11%. Um partido de dissidentes da Nova Democracia obtém 4% e o LAOS, de extrema-direita, também obtém 4%. A verificarem-se resultados eleitorais, em Abril, próximos destas sondagens, os socialistas gregos ficam no fio da navalha, podendo dar maioria parlamentar à esquerda ou à direita, consoante o lado para onde quiserem cair – literalmente. .
Se eu me desse ao trabalho de ler todo o prefácio de Cavaco Silva ao seu livro «Roteiros VI», começava a colocar em questão a minha sanidade mental. Por isso, fico-me pelas citações que toda a imprensa divulgou, nomeadamente a frase mais repetida, em que o presidente da República, por não ter sido informado sobre o PEC IV, acusa o anterior primeiro-ministro, José Sócrates, de «falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia». Este «ajuste de contas» – mesquinho, porque evidencia mais a natureza pessoal do que institucional do diferendo –, agora, quase um ano depois, revela que o presidente da República pautou o seu comportamento, durante a crise que conduziu à queda do anterior governo, por este ressabiamento pessoal. É Cavaco Silva igual a si próprio: nada que o afaste das declarações sobre o valor das suas reformas.
O Álvaro come e cala porque isto de ser ministro dá-lhe gozo, mesmo que ande aos papéis. E ainda há que proteger aquela catrefra de gente que recrutou.
Informa o i que o deputado do PSD Paulo Cavaleiro vai questionar
formalmente a Caixa Geral de Depósitos se o seu administrador Rodolfo Lavrador
cumpriu as regras de contenção de custos da empresa numa sua recente viagem a
Maputo. O deputado do PSD, acaba de prestar um bom serviço, apesar de se saber
que só levantou esta questão porque o administrador em causa foi secretário de
Estado das Finanças e do Tesouro num Governo socialista (entre 2001 e 2002) e
desempenhou lugares de chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro António
Guterres e do antigo ministro das Finanças Sousa Franco. Senão teria metido a
viola no saco não fosse o partido retirar-lhe o cargo de deputado na próxima
oportunidade. Aguardamos notícias das próximas viagens e outras despesas por
conta do erário público de todos os membros da Administração da CGD.
Leio nos jornais: «Pedro Passos Coelho foi no sábado à noite reeleito presidente do PSD com 95,5% dos votos dos militantes
sociais-democratas, numa corrida em que era o único candidato.» É normal, quando o líder do partido é
primeiro-ministro. No entanto, havia por aí umas alminhas sectárias, para não
ir mais longe, que lhes dava gozo chamar «kimilsunguista» ao Ps, quando isso
aconteceu ao anterior líder do PS e também primeiro-ministro. Hoje, essas
alminhas estão em silêncio. Talvez a morder a língua até sangrar.
SOBRE LIVROS E OUTRAS ARTES
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O amor nos tempos da blogosfera
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Alice Campos (a tradução da memória
António Manuel Venda (Floresta do Sul)
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